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PLAYBOY: Você condena a noção puritana de que o amor físico é feio ou mau; no entanto, você escreveu que "o desejo e a indulgência indiscriminados são possíveis apenas àqueles que consideram o sexo e a si próprios como maus". Você diria que a indulgência sexual seletiva e discriminada é moral?

RAND: Eu diria que uma vida sexual discriminada e seletiva não é o mesmo que indulgência. O termo "indulgência" implica uma ação executada superficial e casualmente. Eu proponho que o sexo seja um dos mais importantes aspectos da vida do homem e que, portanto, não deve jamais ser tratado de forma superficial ou casual. Um relacionamento sexual é apropriado somente quando considerado um dos maiores valores que se pode encontrar num ser humano. O sexo não pode ser nada além de uma resposta a valores. E é por isso que eu considero a promiscuidade imoral. Não porque o sexo seja maligno, mas porque o sexo é bom e importante demais.

PLAYBOY: Isso significa, em sua opinião, que o sexo deva envolver somente parceiros casados?

RAND: Não necessariamente. O que o sexo deve envolver é um relacionamento muito sério. Se esse relacionamento deve ou não tornar-se um casamento é uma matéria circunstancial, a depender do contexto das vidas das duas pessoas em questão. Eu considero o casamento uma instituição muito importante, mas é importante quando e se duas pessoas tenham encontrado a pessoa com quem desejam passar o resto de suas vidas - uma questão sobre a qual nenhum homem ou mulher pode ter certeza automaticamente. Quando há a certeza de que a presente escolha é a final, então o casamento é, naturalmente, um estado desejável. Mas isso não significa que qualquer relacionamento baseado em menos que uma plena certeza seja inapropriado. Penso que a escolha entre um namoro ou um casamento depende do conhecimento e da posição das pessoas envolvidas e deve ser deixada para a decisão deles. Qualquer alternativa é moral, dado que as partes levem a sério a relação e que a baseiem em valores.

PLAYBOY: Como alguém que defende a causa do auto-interesse esclarecido, como você vê a dedicação da vida de uma pessoa à auto-gratificação hedonista?

RAND: Sou profundamente contrária à filosofia hedonista. O hedonismo é a doutrina que defende que o bem é o que quer que gere prazer e que, portanto, o prazer é o padrão de moralidade. O objetivismo defende que o bem deve ser definido por um padrão racional de valor, que o prazer não é uma causa primária, mas tão somente uma consequência, que somente o prazer advindo de um julgamento de valor racional pode ser considerado moral, e que o prazer, como tal, não é um guia de ação nem um padrão de moralidade. Dizer que o prazer deve ser o padrão de moralidade significa simplesmente que quaisquer valores que você tenha escolhido, conscientemente ou não, racionalmente ou não, são corretos e morais. Isso significa que você deve ser guiado por sentimentos, emoções e impulsos casuais. Minha filosofia é o contrário do hedonismo. Eu defendo que não é possível alcançar a felicidade através de meios aleatórios, arbitrários ou subjetivos. Por valores racionais, não quero dizer quaisquer coisas que o homem declare arbitrária ou cegamente serem racionais. É a moralidade, a ciência da ética, que deve definir para os homens o que é um padrão racional e quais são os valores racionais a ser buscados.

PLAYBOY: Você já afirmou que o homem que passa seu tempo tentando conquistar mulheres é um homem que "despreza a si mesmo". Pode elaborar?

RAND: Esse tipo de homem reverte a causa e o efeito em relação ao sexo. Sexo é uma expressão de auto-estima, de auto-valor. Mas o homem que não valoriza a si próprio tenta reverter esse processo. Ele tenta derivar sua auto-estima de suas conquistas sexuais, o que não é possível de se fazer. Ele não pode adquirir seus valores das várias mulheres que o consideram valioso. Contudo, é isso que ele tenta fazer.

PLAYBOY: Você ataca a ideia de que o sexo é "imune à razão". Porém, não é o sexo um instinto biológico não-racional?

RAND: Não. Para começar, o homem não possui quaisquer instintos. Fisicamente, o sexo é somente uma capacidade. Como o homem exercerá essa capacidade e quem ele considerará atraente depende de seus padrões de valor. Depende de suas premissas, que podem ser conscientes ou subconscientes, e que determinam suas escolhas. É dessa maneira que sua filosofia dita sua vida sexual.

PLAYBOY: O indivíduo não é dotado de fortes e não-racionais impulsos biológicos?

RAND: Não. O homem é dotado de certo tipo de mecanismo físico e de certas necessidades, mas não possui qualquer conhecimento de como satisfazê-las. Por exemplo, o homem precisa de alimento. Ele sente fome. Mas a não ser que ele aprenda a identificar essa fome e então aprenda que precisa de comida e como obtê-la, ele morrerá de fome. A necessidade, a fome, não dirá a ele como satisfazê-la. O homem nasce com certas necessidades físicas e psicológicas, mas não é capaz de descobri-las nem satisfazê-las sem o uso de sua mente. O homem tem que descobrir o que é certo ou errado para si como ser racional. Seus impulsos não o informarão o que fazer.

(Continua)

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Ayn Rand (1905-1982) foi uma romancista e filósofa russo-americana de grande influência no movimento libertário. Seus livros principais foram A Revolta de Atlas e A Nascente.
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