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PLAYBOY: Deve-se ignorar totalmente as emoções, rejeitá-las da vida por completo?

RAND: Evidentemente não. Deve-se tão somente mantê-las em seu devido lugar. Uma emoção é uma reposta automática, um efeito automático das premissas valorativas do homem. Um efeito, não uma causa. Não há necessariamente conflito, não há dicotomia entre as emoções e a razão do homem - dado que se observe seu relacionamento apropriado. Um homem racional sabe - ou ao menos pretende descobrir - a fonte de suas emoções, as premissas básicas de que advêm; se são erradas, ele as corrige. Ele jamais age impelido por emoções inexplicadas, cujo significado desconhece. Ao avaliar uma situação, ele sabe por que ele reage como reage e se está certo. Ele não tem conflitos interiores, sua mente e suas emoções estão integradas, sua consciência está em perfeita harmonia. Suas emoções não são suas inimigas, são seus meios de desfrutar da vida. Mas não são seu guia; seu guia é sua mente. Esse relacionamento não pode ser revertido. Se o homem toma suas emoções como causa e sua mente como efeito passivo, se ele é guiado por suas emoções e sua mente serve apenas para racionalizá-las ou justificá-las, então ele está agindo de maneira imoral, condenando a si próprio à miséria, ao fracasso, à derrota, e não alcançará nada além de destruição - sua e dos outros.

PLAYBOY: De acordo com a sua filosofia, o trabalho e a conquista são os maiores objetivos da vida. Você considera imorais aqueles que encontram maior realização nos laços de amizade e família?

RAND: Se colocam coisas como amizade e família acima do trabalho produtivo, sim, são imorais. A amizade, a vida familiar e os relacionamentos humanos não são primordiais na vida do homem. Um homem que coloca os outros em primeiro lugar, acima de seu próprio trabalho criativo, é um parasita emocional; em contraste, se coloca seu trabalho em primeiro plano, não há conflito entre seu trabalho e seu desfrute dos relacionamentos humanos.

PLAYBOY: Você acredita que tanto mulheres quanto homens devam organizar suas vidas em torno do trabalho? Se sim, que tipo de trabalho?

RAND: Claro. Eu creio que mulheres sejam seres humanos. O que é apropriado para um homem é apropriado para uma mulher. Os princípios básicos são os mesmos. Eu não pretendo prescrever que tipo de trabalho um homem deva executar, e também não faria tal coisa em relação às mulheres. Não há trabalho que seja particularmente feminino. Mulheres podem escolher seu trabalho de acordo com seus propósitos e premissas da mesma maneira que os homens.

PLAYBOY: Em sua opinião, uma mulher que escolha dedicar-se à família e à casa ao invés da carreira é imoral?

RAND: Imoral, não - eu diria que ela é imprática, porque uma casa não pode ser uma ocupação plena, a não ser quando os filhos são muito jovens. No entanto, se ela deseja uma família e quer fazer daquilo sua carreira, ao menos temporariamente, seria apropriado caso ela lide com a questão como uma carreira, ou seja, caso ela estude a matéria e defina regras e princípios segundo os quais ela deseja criar seus filhos, abordando o assunto de maneira intelectual. É uma tarefa muito responsável e importante, mas somente quando tratada como ciência e não como indulgência emocional.

PLAYBOY: Onde, você diria, que se encaixa o amor romântico na vida de uma pessoa racional cuja única paixão motivadora é o trabalho?

RAND: É sua maior recompensa. O único homem capaz de experimentar um profundo amor romântico é aquele motivado pela paixão por seu trabalho - porque o amor é uma expressão de auto-estima, dos valores mais profundos no caráter de um homem ou mulher. A paixão ocorre entre pessoas que compartilham valores. Se um homem não tem valores claramente definidos e não possui caráter moral, ele não é capaz de apreciar outra pessoa. A propósito disso, eu gostaria de citar uma passagem de A Nascente na qual o herói profere uma frase que é frequentemente mencionada pelos leitores: "Para dizer 'Eu te amo', é necessário antes saber como dizer 'eu'".

PLAYBOY: Você defende que a felicidade própria é o fim mais elevado e que o auto-sacrifício é imoral. Isso se aplica ao amor tanto quanto ao trabalho?

RAND: Ao amor mais que a qualquer outra coisa. Quando se ama, isso significa que a pessoa por quem se é apaixonado é de grande importância pessoal e egoísta para você e para sua vida. Não fosse você egoísta, isso significaria que você não tem qualquer prazer ou feliidade da companhia e da existência da pessoa que você ama e que você é motivado somente por pena auto-sacrificante da necessidade daquela pessoa por você. Não é necessário que eu explique para você que ninguém deve se sentir lisonjeado ou aceitar um conceito dessa ordem. O amor não é um auto-sacrifício, mas a mais profunda afirmação de suas necessidades e valores. É por sua felicidade que você precisa da pessoa que ama, e esse é o maior elogio e tributo que você pode dar a ela.

(Continua)

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Ayn Rand (1905-1982) foi uma romancista e filósofa russo-americana de grande influência no movimento libertário. Seus livros principais foram A Revolta de Atlas e A Nascente.
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