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EM TODA CIDADE MÉDIA ou pequena da América um grupo superior de famílias paira acima da classe média e sobre a massa da população de funcionários de escritório e operários assalariados. Os membros dessem grupo possuem a maior parte do que existe localmente para ser possuído. Seus nomes e retratos são impressos com freqüência no jornal local, e, na realidade, o jornal é deles, como deles é a estação de rádio. Também são donos das três fábricas locais mais importantes, e da maioria das casas comerciais ao longo da rua principal; dirigem, ainda, os bancos. Associando-se uns aos outros intimamente, têm consciência do fato de pertencerem à classe líderante das famílias liderantes.

Seus filhos e filhas freqüentam a escola superior, quase sempre depois de terem cursado escolas secundárias particulares. Casam-se entre si, ou com rapazes e moças de famílias semelhantes em cidades semelhantes. Depois de bem casados, passam a possuir, ocupar, decidir. O filho de uma dessas famílias, para o sofrimento de seu pai e a fúria de seu avô, é hoje diretor de um ramo local de uma empresa de âmbito nacional. O principal médico tem dois filhos, um dos quais lhe herda a clínica; o outro — que dentro em breve se casará com a filha da segunda fábrica do lugar — provavelmente será o próximo promotor. Assim tem sido tradicionalmente, e assim é hoje nas pequenas cidades da América.

A consciência de classe não é uma característica idêntica em todos os níveis da sociedade americana: é mais evidente na classe superior. Entre a massa da população, em toda a América, há muita confusão e imprecisão nas linhas demarcatórias, no valor de posição social atribuído às roupas e casas, às formas de ganhar e gastar dinheiro. As pessoas das classes inferior e média se distinguem, naturalmente, pelos valores, coisas e experiências a que são levados pelas diferenças de renda, mas freqüentemente não têm consciência doesses valores nem de suas bases de classe.

Os da camada superior, por outro lado, talvez por serem em menor número, podem conhecer-se muito mais facilmente, manter entre si uma tradição comum, e assim ter consciência de sua espécie. Têm o dinheiro e o tempo necessário para manter seus padrões comuns. Ricos, são um grupo de pessoas mais ou menos distinto, que associando-se uns aos outros formam círculos compactos com pretensões comuns a serem reconhecidos corno as principais famílias de suas cidades.
C. Wright Mills (1916-1962) foi um sociólogo americano. Em seus vários trabalhos, analisou a dinâmica das classes sociais e da burocracia, além do relacionamento entre a teoria e a história na análise sociológica.
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