libertyzine
Essas diversas noções de elite, quando devidamente compreendidas, ligam-se intrincadamente umas às outras, e utilizaremos todas neste exame do êxito americano. Estudaremos cada uma das várias altas rodas como fonte de candidatos para a elite, e o faremos em termos das principais instituições que constituem a sociedade total da América. Dentro de cada uma delas e entre elas, estabeleceremos as inter-relações entre riqueza, poder e prestígio. Mas nossa principal preocupação é com o poder dos que hoje ocupam os postos de comando, e com o papel que desempenham na história de nossa época.

Essa elite pode ser considerada onipotente, e seu poder como um grande projeto oculto. No marxismo vulgar, os acontecimentos e tendências são explicados pela referência à "vontade da burguesia"; no nazismo, pela referência à "conspiração dos judeus"; pela pequena direita da América de hoje, por uma referência à "força oculta" dos espiões comunistas. Segundo essas noções da elite onipotente como causa histórica, ela não é jamais um agente totalmente visível. É, de fato, um substituto secular da vontade de Deus, realizando-se numa espécie de destino providencial, exceto pelo fato de que os homens que não são a elite podem opor-se a ela e mesmo superá-la.1

A opinião oposta — da elite impotente — é atualmente muito popular entre os observadores de espírito liberal. Longe de ser onipotente, a elite é considerada como tão dispersa que lhe falta coerência como força histórica. Sua invisibilidade não é a do segredo, mas da multidão. Os que ocupam os postos formais da autoridade estão em tal posição de xeque-mate — pelas outras elites que exercem pressão, ou pelo público como eleitorado, ou pelos códigos constitucionais — que, embora possa haver classes superiores, não há uma classe dominante. Embora possa haver homens de poder, não há uma elite de poder; embora possa haver um sistema de estratificação, não tem realmente uma cúpula. No caso extremo, essa opinião da elite como enfraquecida pela concessão e desunida até a nulidade, é um substituto do destino coletivo impessoal, pois segundo tal opinião as decisões dos homens visíveis nos círculos superiores não têm significação na história.2

Internacionalmente, a imagem de uma elite onipotente tende a predominar. Todos os fatos bons e agradáveis são prontamente atribuídos pelos fazedores de opinião aos líderes de seu país; todos os acontecimentos maus e experiências desagradáveis são imputados ao inimigo externo. Em ambos os casos, a onipotência de maus governantes ou dos líderes virtuosos é implícita. Dentro do país, a utilização dessa retórica é um pouco mais complicada: quando os homens falam do poder de seu partido ou círculo, eles e seus líderes são, certamente, impotentes — só o "povo" é onipotente. Mas quando falam do poder do partido ou do círculo de seu adversário, atribuem-lhe a onipotência — o "povo" é, então, implacavelmente enganado.

De modo geral, os homens de poder na América tendem, devido a uma convenção, a negar que sejam poderosos. Nenhum americano se candidata para dominar ou mesmo governar, mas apenas para servir; não se torna um burocrata ou mesmo um funcionário, mas um servidor público. E hoje em dia, como já assinalei, essa atitude tornou-se uma característica padronizada dos programas de relações públicas de todos os homens do poder. Tornou-se parte tão firme do estilo do exercício do poder que os autores conservadores prontamente a interpretam, erroneamente, como indício de uma tendência para uma "situação de poder amorfo".

Mas a "situação de poder" da América é hoje menos amorfa que a perspectiva dos que a consideram como uma confusão romântica. É menos uma "situação" simples e momentânea do que uma estrutura graduada e durável. Se os ocupantes dos postos mais altos não são onipotentes, também não são impotentes. É a forma e a altura da gradação do poder que devemos examinar para compreender o grau de poder tido e exercido pela elite.

Se o poder de decidir sobre problemas nacionais fosse partilhado de forma absolutamente igual, não haveria uma elite do poder; na realidade, não haveria gradação de poder, mas somente uma homogeneidade radical. No extremo oposto, se a capacidade de decisão fosse absolutamente monopolizada por um pequeno grupo, não haveria gradação do poder — haveria simplesmente esse pequeno grupo no comando, e abaixo dele, sem distinção, as massas dominadas. A sociedade americana de hoje não representa nenhum desses dois extremos, mas concebê-los não é por isso menos útil: faz com que compreendamos mais claramente a questão da estrutura do poder nos Estados Unidos e a posição que nela ocupa a elite do poder.

Dentro de cada uma das ordens institucionais mais poderosas da sociedade moderna, há uma gradação de poder. O dono de um varejo de frutas à beira da estrada não tem, em qualquer área de decisão social, economica ou política, o mesmo poder que o chefe de uma companhia de frutas multimilionária. Nenhum tenente, na tropa, pode ser tão poderoso quanto o Chefe do Estado-Maior no Pentágono. Nenhum subdelegado exerce tanta autoridade quanto o Presidente dos Estados Unidos. Assim, o problema de definir a elite do poder depende do nível em que desejamos estabelecer a linha demarcatória. Baixando esta, poderíamos definir a elite como inexistente; elevando-a, poderíamos fazer da elite um círculo realmente muito pequeno. Preliminarmente, e tendo em vista um mínimo, traçamos a linha aproximadamente, como se fosse com carvão mesmo: por elite do poder entendemos os círculos políticos, econômicos e militares que, como um complexo de igrejinhas interligadas, partilham as decisões de conseqüências pelo menos nacionais. Na medida em que os acontecimentos nacionais podem ser decididos, é a elite do poder quem os decide.

Dizer que há, dentro da sociedade moderna, gradações óbvias de poder e oportunidades de decidir, não é dizer que os poderosos estão unidos, que sabem perfeitamente o que fazem, ou que se tenham unido conscientemente numa conspiração. Enfrentaremos melhor essas questões se nos ocuparmos, em primeiro lugar, mais com a posição estrutural dos grandes e poderosos, e com as conseqüências de suas decisões, do que com as proporções de sua consciência ou da pureza de seus motivos. Para compreender a elite do poder, devemos observar três pontos principais:

I. Um deles, que acentuaremos durante toda a discussão de cada um dos círculos superiores, é a psicologia das várias elites em seus respectivos meios. Na medida em que a elite do poder se compõe de homens de origens e educação semelhantes, na medida em que suas carreiras e estilos de vida são semelhantes, há base psicológica e social para sua unidade, fundamentada no fato de serem um tipo social semelhante e de se fundirem facilmente uns com os outros. Essa forma de unidade atinge seu ápice mais frívolo na partilha do prestígio que há para ser desfrutado no mundo da celebridade. Atinge uma culminância mais sólida no fato de serem intercambiáveis as posições dentro e entre as três instituições dominantes.

II. Atrás da unidade psicológica e social que possa existir, estão a estrutura e a mecânica das hierarquias institucionais presididas pelo diretório político, pelos ricos associados e pelos altos militares. Quanto maior a escala desses domínios burocráticos, maior o alcance de suas respectivas elites de poder. A forma que tomam essas hierarquias principais e as relações que têm com as outras hierarquias determinam, em grande parte, as relações dos que as controlam. Se as hierarquias são dispersas e desunidas, as respectivas elites tendem a ser dispersas e desunidas; se têm muitas interligações e pontos de interesse coincidentes, então suas elites formam um agrupamento coerente.

A unidade da elite não é um simples reflexo da unidade das instituições, embora homens e instituições estejam sempre ligados,' e nosso conceito de uma elite do poder nos convide a determinar essa relação. Há hoje na América várias importantes coincidências de interesses estruturais entre esses domínios institucionais, inclusive no desenvolvimento de uma organização de guerra permanente, promovido por uma economia particular dentro de um vazio político.

III. A unidade da elite do poder, porém, não se baseia apenas na semelhança psicológica e no intercâmbio social, nem se baseia totalmente nas coincidências estruturais dos postos de comando e dos interesses. Por vezes, ela é a unidade de uma coordenação mais explícita. Dizer que esses três círculos superiores são cada vez mais coordenados, que essa é a base de sua unidade e que por vezes — como durante as guerras — tal coordenação é decisiva, não é dizer que a coordenação seja total ou permanente, ou mesmo que seja firme. E muito menos é dizer que a coordenação espontânea é a única, ou a principal, base de sua unidade, ou que a elite do poder tenha surgido como a realização de um plano. Mas é dizer que ao abrir a mecânica institucional de nossa época estradas aos homens que buscam interesses diversos, muitos deles foram vendo que esses interesses poderiam ser realizados mais facilmente se trabalhassem juntos, tanto nos processos informais como nos mais formais, e foi o que passaram a fazer.



Notas:

1 Os que julgam ter havido, ou haver, agentes comunistas no governo, e os que se atemorizam com isso, jamais formulam a pergunta; Bem, suponhamos que existam comunistas em altos postos, qual o poder de que dispõem?" Admitem simplesmente que os homens em altos postos, ou nesse caso mesmo os que estão em posições nas quais podem influenciar tais homens, tomam decisões sobre acontecimentos importantes. Os que julgam terem os agentes comunistas infiltrados no governo entregue a China ao bloco soviético, ou influenciado os americanos leais para que a entregassem, simplesmente supõem haver um grupo de homens que resolvem essas ques-
tões, ativamente ou pela negligência e estupidez. Muitos outros, que não acreditam serem os agentes comunistas tão influentes, mesmo assim supõem que dirigentes americanos leais perderam tudo isso por si mesmos.

2 A idéia de uma elite impotente, como teremos ocasião de ver no capítulo XI — A Teoria do Equilíbrio, é fortemente corroborada pela noção de uma economia automática na qual o problema do poder é resolvido para a elite econômica pela negação de sua existência. Ninguém tem bastante Poder para influir realmente; os acontecimentos são resultado de um equilíbrio anônimo. Também para a elite política, esse equilíbrio resolve o problema do poder. Paralelamente à economia do mercado, há a democracia sem líderes na qual ninguém é responsável por nada e todos são responsáveis por tudo. A vontade dos homens atua apenas através do funcionamento impessoal do processo eleitoral.
C. Wright Mills (1916-1962) foi um sociólogo americano. Em seus vários trabalhos, analisou a dinâmica das classes sociais e da burocracia, além do relacionamento entre a teoria e a história na análise sociológica.
 Blogger.com