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As pessoas das altas rodas também podem ser consideradas como membros de um estrato social elevado, como um conjunto de grupos cujos membros se conhecem, se vêem socialmente e nos negócios, e por isso, ao tomarem decisões, levam-se mutuamente em consideração. A elite, segundo esse conceito, se considera, e é considerada pelos outros, como o círculo íntimo das "classes sociais superiores".1 Forma uma entidade social e psicológica mais ou menos compacta; seus componentes tornaram-se membros conscientes de uma classe social. As pessoas são ou não aceitas nessa classe, havendo uma divisão qualitativa, e não simplesmente uma escala numérica, separando os que são a elite dos que não são. Têm certa consciência de si como uma classe social e se comportam, uns para com os outros, de modo diverso daquele que adotam para com os membros de outras classes. Aceitam-se, compreendem-se, casam entre si, e procuram trabalhar e pensar, se não juntos, pelo menos de forma semelhante.

Não pretendemos, pela nossa definição, prejulgar se a elite dos postos de comando pertence conscientemente a essa classe socialmente reconhecida, ou se proporções consideráveis da elite vêm de uma classe assim tão clara e distinta. São aspectos a serem investigados. Não obstante, para reconhecer o que pretendemos investigar, devemos anotar algo que todas as biografias e memórias dos ricos, poderosos e eminentes deixam claro: não importa o que mais sejam, as pessoas dessas altas rodas estão envolvidas num conjunto de "grupos" que se tocam e de "igrejinhas" intrincadamente ligadas. Há uma espécie de atração mútua entre os que "se sentam no mesmo terraço" — embora isso freqüentemente só se torne claro a eles, bem como aos outros, quando sentem a necessidade de estabelecer uma linha divisória. Somente quando, na defesa comum, compreendem o que têm em comum, cerram fileiras contra os intrusos.

A noção desse estrato dominante implica assim que a maioria de seus membros tem origens sociais semelhantes, que durante toda a sua vida mantêm uma rede de ligações informais, e que há um certo grau de possibilidade de intercâmbio de posição entre as várias hierarquias de dinheiro, poder e celebridade. Devemos notar, desde logo, que se esse estrato de elite existe, sua visibilidade social e sua forma, por motivos históricos muito sólidos, são muito diferentes do parentesco de nobres que no passado governaram várias nações européias.

O fato de que a sociedade americana jamais tenha passado por uma época feudal e de importância decisiva para a natureza da elite americana, bem como para a sociedade americana como um todo histórico. Isso significa que nenhuma nobreza ou aristocracia, estabelecida antes da era capitalista, esteve em tensa oposição a uma alta burguesia. Significa que essa burguesia monopolizou não so a riqueza, mas também o prestígio e o poder. Significa que nenhum grupo de familias nobres dominou as posições mais importantes e monopolizou os valores geralmente tidos em alta estima, e certamente que nenhum grupo o fez explicitamente por um direito herdado. Significa que nenhum alto dignitário da igreja ou nobre cortesão, nenhum latifundiário corn graus honoríficos, nem monopolizadores de altos postos do exército se opuseram a uma burguesia enriquecida, nem que em nome do nascimento e da prerrogativa resistissem corn êxito ao seu critério de realizações pessoais.

Mas isso nao significa a inexistência de estratos superiores nos Estados Unidos. O fato de ter surgido de uma "classe media" sem superiores aristocráticos reconhecidos não significa que tenha permanecido como classe media quando enormes aumentos de fortuna lhe possibilitaram uma superioridade. Sua origem e sua carência de antiguidade podem ter tornado os estratos superiores menos visíveis na América do que em outros lugares. Mas na América de hoje ha na realidade formas e alcances de riqueza e poder que as pessoas da classe media e inferior quase nao conhecem, e não chegam nem mesmo a sonhar. Há familias que, em sua fortuna, estão totalmente insuladas dos baques e guinadas econômicos dos simplesmente prósperos e dos mais abaixo na escala. Há também homens de poder que, em grupos reduzidos, tomam decisões de conseqiiências enormes para a massa da população.

A elite americana penetrou na história moderna como uma burguesia virtualmente sem oposição. Nenhuma burguesia nacional, antes ou depois, teve tais oportunidades e vantagens. Não tendo vizinhos militares, facilmente ocupou um continente isolado, pleno de recursos naturais e enormemente convidativo a uma força de trabalho disposta. Uma estrutura de poder uma ideologia para sua justificação já estavam ao alcance da mão. Contra a restrição mercantilista, herdaram o principio do laissez-faire; contra os plantadores do Sul, impuseram o principio do industrialismo. A Guerra Revolucionária pôs fim as pretensões coloniais de nobreza, enquanto os legalistas fugiam do país e muitas propriedades eram divididas. A transformação jacksoniana, corn sua revolução nas posições socials, deu fim as pretensões de monopólio de descendência pelas famílias antigas da Nova Inglaterra. A Guerra Civil rompeu o poder, e corn o tempo o prestigio, dos que no Sul de antes da luta pretendiam a maior consideração. O ritmo de toda a evolução capitalista tornou impossivel a uma nobreza desenvolver-se e manter-se na America.

Nenhuma classe dominante fixa, baseada na vida agrária florescendo na glória militar poderia deter na América o impulso histórico do comercio e indústria, ou subordinar a si a elite capitalista — como os capitalistas se subordinaram, por exemplo, na Alemanha e no Japão. Nem poderia semelhante classe, em parte alguma do mundo, conter os capitalistas dos Estados Unidos, quando a violência industrializada passou a decidir a história. Basta ver a sorte da Alemanha e do Japão nas duas guerras mundiais do seculo XX — e também a da própria Grã-Bretanha e sua classe dominante modelar, quando Nova York tornou-se a capital econômica inevitável, e Washington a capital politica do mundo capitalista ocidental.



Notas:

1 O conceito de elite constituída de membros de um estrato social elevado harmoniza-se com a idéia comum de estratificação. Tecnicamente, está mais perto do "grupo de status" do que da "classe", e foi muito bem examinado por Joseph A. Schumpeter, "Classes Sociais num Meio Etnicamente Homogêneo", Imperialismo e Classes Sociais. Cf. também seu Capitalismo, Socialismo e Democracia, parte II. Para a distinção entre "classe" e "status"
C. Wright Mills (1916-1962) foi um sociólogo americano. Em seus vários trabalhos, analisou a dinâmica das classes sociais e da burocracia, além do relacionamento entre a teoria e a história na análise sociológica.
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