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Que a divisão social e econômica das classes superiores é também uma divisão política ainda não se evidenciou claramente em todas as localidades, mas é um fato que tende a tornar-se nacional desde a II Guerra Mundial.

As classes superiores locais — nova e velha, vista ou não, ativa e passiva — constituem a espinha dorsal do Partido Republicano. Os membros da classe superior mais antiga, porém, não parecem tão evidentes ou politicamente ativos, no cenário do pós-guerra, como muitos da mais nova. Talvez porque não se sintam capazes, como Allison Davis e outros sugeriram, de "diminuir a distância social entre eles e os eleitores". Decerto, em toda parte sua posição social é "claramente reconhecida pelas autoridades. Estão isentos de muitas das restrições legais de menor importância, quase nunca são detidos por embriaguez ou por pequenas infrações do trânsito, raramente são chamados para formar júris, e habitualmente têm atendidos todos os favores que pedem". Preocupam-se muito, é certo, com o nível dos impostos e com a avaliação de propriedades, mas essas preocupações, sendo totalmente compartilhadas pela nova classe superior, são bem atendidas sem que se torne necessária a participação dos antigos.

A nova classe superior freqüentemente pratica as ruidosas emoções políticas e frustrações de status, que, em escala nacional e de forma extrema, foram facilmente observáveis nos Investigadores.1 A chave dessas emoções políticas, no Congresso ou na sociedade local, está na psicologia da posição social do novo-rico. Essas classes — dos multimilionários do Texas aos pequenos aproveitadores de guerra do Illinois, que consolidaram suas fortunas — sentem que estão sendo mantidas em posições inferiores pelas pretensões de status das fortunas mais antigas e das famílias mais antigas. O corretor de seguros que de súbito passou a ganhar 30 mil dólares por ano, que dirige um carro de 260 HP e compra vulgares anéis de diamante para sua mulher; o negociante que de súbito passou a ganhar 60 mil dólares por ano, e que constrói piscinas de 50 pés e não sabe que atitude adotar para com seus novos criados — sentem que realizaram algo, no entanto não são considerados bastante bons para possuir integralmente o que realizaram. Há hoje no Texas homens cujos nomes são rigorosamente locais, mas que têm mais dinheiro do que muitas famílias de destaque nacional, do Leste. Mas eles não são celebridades nacionais, e mesmo quando o são, não é da mesma maneira.

Tais sentimentos existem, em escala menor, em praticamente todas as pequenas e médias cidades. Nem sempre são articulados, e certamente não se tornaram a base de qualquer movimento político real, mas se comprazem numa satisfação ampla e profunda em ver os homens de prestígio serem censurados, em observar o general ser admoestado pelo arrivista, em ouvir o adventício chamar familiarmente, ou mesmo insultuosamente, os membros da classe superior antiga pelos primeiros nomes, numa discussão pública.

O objetivo político da pequena direita, formada entre as novas classes superiores das pequenas cidades, é a destruição das realizações legislativas do New Deal e do Fair Deal. Além disso, o crescimento dos sindicatos em muitas dessas cidades durante a guerra, com líderes trabalhistas exigindo maior participação nas organizações cívicas locais; a maior segurança dos trabalhadores assalariados, que durante a guerra descontavam cheques cada vez maiores e enchiam as ruas nos sábados; os carros novos e grandes das pessoas de segunda categoria — todas essas modificações das duas últimas décadas ameaçam psicologicamente a nova classe superior, reduzindo-lhe o sentimento de importância, e o senso de uma determinada ordem de prestígio.

A velha classe superior também se tornou menos firme socialmente com essa movimentação nas ruas, nas lojas e nos bancos; mas, no final das contas, raciocina: "Essa gente na verdade não nos atinge. Tudo o que tem é dinheiro." O novo-rico, porém, estando socialmente menos firme do que o antigo, sente sua importância diminuir ao ver que outros também se elevam no mundo econômico das cidades pequenas.

A sociedade local é uma estrutura de poder, bem como de hierarquia de posição social; em sua cúpula há uma série de igrejinhas ou grupos cujos membros julgam e decidem os assuntos importantes da comunidade, bem como muitas questões mais amplas do Estado e da nação, nas quais "a comunidade" foi envolvida.2 Habitualmente, embora nem sempre, essas igrejinhas são compostas de pessoas da classe superior antiga, e incluem os homens de negócios mais importantes e os que controlam os bancos e que mantêm ligações, comumente, com os principais donos de imóveis. Organizadas sem formalidades, essas igrejinhas freqüentemente se centralizam em torno de funções econômicas: há a igrejinha industrial, a dos varejistas, a dos banqueiros. Elas se justapõem, e há comumente homens que, passando de uma a outra, coordenam os pontos de vista e as decisões. Há também os advogados e administradores das sólidas famílias que vivem de rendas, e que, pelas procurações e pelos muitos contatos entre as novas e velhas fortunas que representam, juntam e fazem pesar nas decisões o poder do dinheiro, do crédito e da organização.

Imediatamente abaixo desses grupos estão os dinâmicos, em sua grande maioria pertencentes à nova classe superior, que põem em prática as decisões e programas da cúpula — por vezes antecipando-os e procurando sempre adivinhá-los. Nessa categoria estão os homens de "operação" — os vice-presidentes dos bancos, pequenos homens de negócios que tiveram êxito, os funcionários públicos de alta categoria, os empreiteiros, os executivos das indústrias locais. Esse nível número dois se confunde, nas zonas limítrofes, com o terceiro grupo —chefes de instituições cívicas, funcionários, pequenos líderes cívicos, jornalistas, e finalmente, passando à quarta ordem de poder, hierarquicamente — o grosso das fileiras da camada profissional e de negócios, os sacerdotes, os principais professores, os assistentes sociais, os diretores de pessoal.

Em quase todos os assuntos de interesse, ou que demandam uma decisão, um grupo de cúpula, ou mesmo um homem-chave, torna-se estratégico para a decisão em questão e para a coordenação informal do apoio que necessitam entre os grupos importantes. Por vezes, é o homem que faz a ligação do grupo com o governador do Estado; outras, é o grupo dos banqueiros, ou o homem que goza de simpatias nas fileiras tanto do Rotary Club e da Câmara de Comércio, das Associações Filantrópicas e da Ordem dos Advogados.

O poder não reside nessas organizações de nível médio; as decisões-chaves não são tomadas por seus membros. Os homens da cúpula pertencem a elas, mas raramente como membros ativos. Como associações, esses grupos ajudam a pôr em prática a política elaborada pelos círculos superiores do poder; são o campo de treinamento, no qual os jovens dinâmicos provam suas qualidades. Por vezes, especialmente nas cidades pequenas, constituem a fonte de recrutamento para os novos membros da cúpula.

"Nós não vamos para as "associações", como são chamadas — ou pelo menos, não vamos logo", disse um homem poderoso de uma boa cidade do Centro-Sul ao Professor Floyd Hunter. "Muitas dessas associações, se entendermos por isso a Câmara de Comércio ou o Conselho Municipal, se reúnem para discutir "objetivos" e "ideais". Não sei o que querem dizer com isso. Vou ser franco, não me agradam essas comissões. Muitos outros na cidade gostam, mas eu não . . . Charles Homer é o principal homem de nosso grupo . . . Quando ele tem uma idéia, os outros acompanham . . . Recentemente teve a idéia de que nossa cidade deveria ser a sede nacional de um Conselho Internacional de Comércio. Reuniu alguns do grupo ( o círculo mais íntimo ) e expôs rapidamente sua idéia. Não falou muito. Nós não nos ocupamos de discursos balofos sobre "ideais" da situação e todo o resto. Vamos direto ao problema, ou seja, como organizar esse Conselho. Julgamos ser uma boa idéia. Havia seis do nosso grupo na reunião . . . Todos receberam tarefas para executar. Moster devia preparar os esboços da incorporação. É o advogado. Tenho um grupo de amigos que interessarei no projeto. Todos os outros farão o mesmo. Esses amigos são o que podemos considerar bons companheiros.

"Resolvemos que seriam necessários $ 65.000 para fazer a coisa funcionar. Poderíamos levantar o dinheiro dentro de nosso próprio grupo, mas como no final das contas isso vai ser um empreendimento da comunidade, achamos melhor fazer com que outros grupos participassem. Resolvemos organizar uma reunião no Grandview Club com membros escolhidos dos outros grupos . . . Quando nos reunimos no clube num jantar com os outros, Homer fez uma pequena exposição — não precisou falar muito. Terminou dizendo que acredita tanto no projeto que está disposto a empregar $ 10.000 de seu bolso, no primeiro ano. Sentou-se. O pessoal dos outros grupos faz consultas entre si, e o grupo do Banco Growers, para não ficar atrás, oferece a mesma importância, mais a garantia de continuar participando do projeto por três anos. Outros oferecem de $ 5.000 a $ 10.000 até que — nuns 30 ou 40 minutos — temos todo o dinheiro necessário. Em três horas a coisa está resolvida, incluindo-se nesse período o tempo gasto para jantar!

"Há um detalhe que não mencionei, e é importante. Fomos para a reunião com a diretoria já escolhida. Os estatutos estavam escritos, e o homem que presidiria a direção foi indicado . . . Um homem de terceiro time que aceitará conselhos .. . O público nada saberá do projeto enquanto ele não chegar à fase que estou descrevendo. Quando a questão já está financeiramente resolvida, procuramos então os jornais e dizemos que a coisa está em estudos. Naturalmente, a notícia já não será novidade para muita gente, mas a Câmara de Comércio e outras organizações cívicas são atraídas pela idéia. Julgam-na boa. Ajudam a organizar e montar o Conselho. E é apenas isso o que falta fazer."3



Notas:

1 Alusão aos membros da Comissão de Investigações do Senador McCarthy. (N. do T.)

2 Utilizei, para esta parte, vários trechos do estudo em primeira mão de Floyd Hunter, Community Power Structure (University of North Carolina Press, 1953).

3 Cf. ibid., págs. 172-4.
C. Wright Mills (1916-1962) foi um sociólogo americano. Em seus vários trabalhos, analisou a dinâmica das classes sociais e da burocracia, além do relacionamento entre a teoria e a história na análise sociológica.
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