libertyzine
27 de out de 2008
01:14
Que a divisão social e econômica das classes superiores é também uma divisão política ainda não se evidenciou claramente em todas as localidades, mas é um fato que tende a tornar-se nacional desde a II Guerra Mundial.

As classes superiores locais — nova e velha, vista ou não, ativa e passiva — constituem a espinha dorsal do Partido Republicano. Os membros da classe superior mais antiga, porém, não parecem tão evidentes ou politicamente ativos, no cenário do pós-guerra, como muitos da mais nova. Talvez porque não se sintam capazes, como Allison Davis e outros sugeriram, de "diminuir a distância social entre eles e os eleitores". Decerto, em toda parte sua posição social é "claramente reconhecida pelas autoridades. Estão isentos de muitas das restrições legais de menor importância, quase nunca são detidos por embriaguez ou por pequenas infrações do trânsito, raramente são chamados para formar júris, e habitualmente têm atendidos todos os favores que pedem". Preocupam-se muito, é certo, com o nível dos impostos e com a avaliação de propriedades, mas essas preocupações, sendo totalmente compartilhadas pela nova classe superior, são bem atendidas sem que se torne necessária a participação dos antigos.

A nova classe superior freqüentemente pratica as ruidosas emoções políticas e frustrações de status, que, em escala nacional e de forma extrema, foram facilmente observáveis nos Investigadores.1 A chave dessas emoções políticas, no Congresso ou na sociedade local, está na psicologia da posição social do novo-rico. Essas classes — dos multimilionários do Texas aos pequenos aproveitadores de guerra do Illinois, que consolidaram suas fortunas — sentem que estão sendo mantidas em posições inferiores pelas pretensões de status das fortunas mais antigas e das famílias mais antigas. O corretor de seguros que de súbito passou a ganhar 30 mil dólares por ano, que dirige um carro de 260 HP e compra vulgares anéis de diamante para sua mulher; o negociante que de súbito passou a ganhar 60 mil dólares por ano, e que constrói piscinas de 50 pés e não sabe que atitude adotar para com seus novos criados — sentem que realizaram algo, no entanto não são considerados bastante bons para possuir integralmente o que realizaram. Há hoje no Texas homens cujos nomes são rigorosamente locais, mas que têm mais dinheiro do que muitas famílias de destaque nacional, do Leste. Mas eles não são celebridades nacionais, e mesmo quando o são, não é da mesma maneira.

Tais sentimentos existem, em escala menor, em praticamente todas as pequenas e médias cidades. Nem sempre são articulados, e certamente não se tornaram a base de qualquer movimento político real, mas se comprazem numa satisfação ampla e profunda em ver os homens de prestígio serem censurados, em observar o general ser admoestado pelo arrivista, em ouvir o adventício chamar familiarmente, ou mesmo insultuosamente, os membros da classe superior antiga pelos primeiros nomes, numa discussão pública.

O objetivo político da pequena direita, formada entre as novas classes superiores das pequenas cidades, é a destruição das realizações legislativas do New Deal e do Fair Deal. Além disso, o crescimento dos sindicatos em muitas dessas cidades durante a guerra, com líderes trabalhistas exigindo maior participação nas organizações cívicas locais; a maior segurança dos trabalhadores assalariados, que durante a guerra descontavam cheques cada vez maiores e enchiam as ruas nos sábados; os carros novos e grandes das pessoas de segunda categoria — todas essas modificações das duas últimas décadas ameaçam psicologicamente a nova classe superior, reduzindo-lhe o sentimento de importância, e o senso de uma determinada ordem de prestígio.

A velha classe superior também se tornou menos firme socialmente com essa movimentação nas ruas, nas lojas e nos bancos; mas, no final das contas, raciocina: "Essa gente na verdade não nos atinge. Tudo o que tem é dinheiro." O novo-rico, porém, estando socialmente menos firme do que o antigo, sente sua importância diminuir ao ver que outros também se elevam no mundo econômico das cidades pequenas.

A sociedade local é uma estrutura de poder, bem como de hierarquia de posição social; em sua cúpula há uma série de igrejinhas ou grupos cujos membros julgam e decidem os assuntos importantes da comunidade, bem como muitas questões mais amplas do Estado e da nação, nas quais "a comunidade" foi envolvida.2 Habitualmente, embora nem sempre, essas igrejinhas são compostas de pessoas da classe superior antiga, e incluem os homens de negócios mais importantes e os que controlam os bancos e que mantêm ligações, comumente, com os principais donos de imóveis. Organizadas sem formalidades, essas igrejinhas freqüentemente se centralizam em torno de funções econômicas: há a igrejinha industrial, a dos varejistas, a dos banqueiros. Elas se justapõem, e há comumente homens que, passando de uma a outra, coordenam os pontos de vista e as decisões. Há também os advogados e administradores das sólidas famílias que vivem de rendas, e que, pelas procurações e pelos muitos contatos entre as novas e velhas fortunas que representam, juntam e fazem pesar nas decisões o poder do dinheiro, do crédito e da organização.

Imediatamente abaixo desses grupos estão os dinâmicos, em sua grande maioria pertencentes à nova classe superior, que põem em prática as decisões e programas da cúpula — por vezes antecipando-os e procurando sempre adivinhá-los. Nessa categoria estão os homens de "operação" — os vice-presidentes dos bancos, pequenos homens de negócios que tiveram êxito, os funcionários públicos de alta categoria, os empreiteiros, os executivos das indústrias locais. Esse nível número dois se confunde, nas zonas limítrofes, com o terceiro grupo —chefes de instituições cívicas, funcionários, pequenos líderes cívicos, jornalistas, e finalmente, passando à quarta ordem de poder, hierarquicamente — o grosso das fileiras da camada profissional e de negócios, os sacerdotes, os principais professores, os assistentes sociais, os diretores de pessoal.

Em quase todos os assuntos de interesse, ou que demandam uma decisão, um grupo de cúpula, ou mesmo um homem-chave, torna-se estratégico para a decisão em questão e para a coordenação informal do apoio que necessitam entre os grupos importantes. Por vezes, é o homem que faz a ligação do grupo com o governador do Estado; outras, é o grupo dos banqueiros, ou o homem que goza de simpatias nas fileiras tanto do Rotary Club e da Câmara de Comércio, das Associações Filantrópicas e da Ordem dos Advogados.

O poder não reside nessas organizações de nível médio; as decisões-chaves não são tomadas por seus membros. Os homens da cúpula pertencem a elas, mas raramente como membros ativos. Como associações, esses grupos ajudam a pôr em prática a política elaborada pelos círculos superiores do poder; são o campo de treinamento, no qual os jovens dinâmicos provam suas qualidades. Por vezes, especialmente nas cidades pequenas, constituem a fonte de recrutamento para os novos membros da cúpula.

"Nós não vamos para as "associações", como são chamadas — ou pelo menos, não vamos logo", disse um homem poderoso de uma boa cidade do Centro-Sul ao Professor Floyd Hunter. "Muitas dessas associações, se entendermos por isso a Câmara de Comércio ou o Conselho Municipal, se reúnem para discutir "objetivos" e "ideais". Não sei o que querem dizer com isso. Vou ser franco, não me agradam essas comissões. Muitos outros na cidade gostam, mas eu não . . . Charles Homer é o principal homem de nosso grupo . . . Quando ele tem uma idéia, os outros acompanham . . . Recentemente teve a idéia de que nossa cidade deveria ser a sede nacional de um Conselho Internacional de Comércio. Reuniu alguns do grupo ( o círculo mais íntimo ) e expôs rapidamente sua idéia. Não falou muito. Nós não nos ocupamos de discursos balofos sobre "ideais" da situação e todo o resto. Vamos direto ao problema, ou seja, como organizar esse Conselho. Julgamos ser uma boa idéia. Havia seis do nosso grupo na reunião . . . Todos receberam tarefas para executar. Moster devia preparar os esboços da incorporação. É o advogado. Tenho um grupo de amigos que interessarei no projeto. Todos os outros farão o mesmo. Esses amigos são o que podemos considerar bons companheiros.

"Resolvemos que seriam necessários $ 65.000 para fazer a coisa funcionar. Poderíamos levantar o dinheiro dentro de nosso próprio grupo, mas como no final das contas isso vai ser um empreendimento da comunidade, achamos melhor fazer com que outros grupos participassem. Resolvemos organizar uma reunião no Grandview Club com membros escolhidos dos outros grupos . . . Quando nos reunimos no clube num jantar com os outros, Homer fez uma pequena exposição — não precisou falar muito. Terminou dizendo que acredita tanto no projeto que está disposto a empregar $ 10.000 de seu bolso, no primeiro ano. Sentou-se. O pessoal dos outros grupos faz consultas entre si, e o grupo do Banco Growers, para não ficar atrás, oferece a mesma importância, mais a garantia de continuar participando do projeto por três anos. Outros oferecem de $ 5.000 a $ 10.000 até que — nuns 30 ou 40 minutos — temos todo o dinheiro necessário. Em três horas a coisa está resolvida, incluindo-se nesse período o tempo gasto para jantar!

"Há um detalhe que não mencionei, e é importante. Fomos para a reunião com a diretoria já escolhida. Os estatutos estavam escritos, e o homem que presidiria a direção foi indicado . . . Um homem de terceiro time que aceitará conselhos .. . O público nada saberá do projeto enquanto ele não chegar à fase que estou descrevendo. Quando a questão já está financeiramente resolvida, procuramos então os jornais e dizemos que a coisa está em estudos. Naturalmente, a notícia já não será novidade para muita gente, mas a Câmara de Comércio e outras organizações cívicas são atraídas pela idéia. Julgam-na boa. Ajudam a organizar e montar o Conselho. E é apenas isso o que falta fazer."3



Notas:

1 Alusão aos membros da Comissão de Investigações do Senador McCarthy. (N. do T.)

2 Utilizei, para esta parte, vários trechos do estudo em primeira mão de Floyd Hunter, Community Power Structure (University of North Carolina Press, 1953).

3 Cf. ibid., págs. 172-4.
C. Wright Mills (1916-1962) foi um sociólogo americano. Em seus vários trabalhos, analisou a dinâmica das classes sociais e da burocracia, além do relacionamento entre a teoria e a história na análise sociológica.
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26 de out de 2008
03:00
Analisando a cidade pequena, tanto o romancista como o sociólogo sentiram claramente o drama das velha e nova classes superiores. A luta por uma posição social, que observaram nessas pequenas cidades, pode ser vista em escala histórica no curso moderno de toda a sociedade ocidental: durante séculos, os adventícios e os "snobs" das novas classes superiores mantiveram-se em tensão contra "a velha guarda". Há, decerto, variações regionais, mas em todo o país os ricos das pequenas cidades são surpreendentemente padronizados. Nessas cidades, predominam hoje dois tipos de classe superior, um composto das famílias socialmente mais velhas e que vivem de rendas, e o outro das famílias mais novas que, econômica e socialmente, são de tipo muito mais empreendedor. Os membros dessas duas classes superiores compreendem as várias distinções entre si, embora cada qual tenha sua opinião particular sobre elas.1

Não se deve supor que a classe superior mais antiga seja necessariamente "mais elevada" do que a nova, ou que esta seja simplesmente constituída de novos-ricos, procurando envolver uma fortuna recém-conquistada nos drapeados do prestígio, usados com tanta naturalidade pelos antigos. A nova classe superior tem um estilo de vida próprio, e embora seus membros — especialmente as mulheres — copiem bastante o estilo da classe superior mais antiga, também — especialmente os homens — menosprezam esse estilo em nome de valores e aspirações próprios. Sob muitos aspectos, esses dois grupos superiores concorrem entre si pelo prestígio, e tal competição representa uma certa deflação mútua de suas pretensões de mérito.

O membro da velha classe superior sente que seu prestígio se origina no próprio tempo. "Nalgum ponto do passado", parece dizer, "meu Ancestral Original levantou-se para ser o Fundador desta Família Local, e agora seu sangue corre em minhas veias. Sou o que Minha Família tem sido, e Minha Família tem estado sempre entre as melhores pessoas." Na Nova Inglaterra e no Sul, um número de famílias superior ao de outras regiões tem aguda consciência de sua linhagem e antiguidade local, sendo mais resistente à ascendência social dos novos-ricos e dos recém-chegados. Talvez haja um sentimento mais forte e mais amplo de família que, especialmente no Sul, inclui os velhos e fiéis criados, bem como os netos. O sentimento de parentesco pode ampliar-se até os que, embora não aparentados pelo casamento ou pelo sangue, sejam considerados como "primos" ou "tias", porque "cresceram junto com mamãe". As velhas famílias da classe superior tendem, assim, a formar um parentesco endógeno, cuja piedade de clã e senso de consangüinidade levam à reverência do passado e por vezes a um interesse culto na história da região onde o clã vem, há tanto tempo, desempenhando um papel tão honroso.

Falar das "velhas famílias" é, naturalmente, falar das "velhas famílias ricas", mas no mundo da posição social da velha classe superior, dinheiro e propriedade ficam subentendidos, simplesmente — e em seguida são menosprezados: "Decerto, é preciso ter bastante dos bens deste mundo para enfrentar os gastos da vida social, das recepções, dos donativos à igreja . . . mas posição social é mais do que dinheiro." Os homens e mulheres da velha classe superior geralmente consideram o dinheiro de modo negativo — como algo em que a nova classe superior está muito interessada. "Sinto ter de dizer que nossos maiores industriais estão cada vez mais preocupados com o dinheiro", dizem, e com isso estão pensando na antiga geração de industriais hoje aposentada e vivendo geralmente de propriedades rurais. Esses homens ricos, e suas mulheres, acredita a classe superior mais antiga, estavam e estão mais interessados nas questões "sociais e da comunidade" do que no simples dinheiro.

Um dos temas principais nas discussões que a classe superior antiga tem sobre os homens dos negócios menores é que estes ganharam muito dinheiro durante a última guerra, mas que socialmente não têm expressão. Outro tema é a forma menos respeitável pela qual o dinheiro dos novos-ricos foi ganho. Falam de concessionários de ninharias, donos de bares, e pessoas relacionadas com transportes de caminho. E, depois de adotar para com elas um ar protetor, lembram-se bem dos mercados-negros da guerra.

A continuação da linha da família antiga como base de prestígio é desafiada pelo estilo invulgar, bem como pelo dinheiro, das novas classes superiores que a II Guerra Mundial ampliou e enriqueceu, tornando, ainda, socialmente ousada. Seu estilo, julgam as classes superiores mais antigas, está substituindo o velho estilo, mais tranqüilo. Sob essa tensão de posição social, há freqüentemente um declínio na base econômica de muitas famílias da classe superior antiga, que, em muitas cidades, se constitui principalmente de propriedades imóveis. Não obstante, ela mantém mão firme sobre as instituições financeiras locais: nos centros de mercado de Geórgia e Nebrasca, nas cidades comerciais e industriais de Vermont e Califórnia — o banqueiro da velha classe superior é habitualmente o senhor do domínio de sua comunidade, dando prestígio ao negociante ao qual se associa, indicando a Igreja simplesmente pelo fato de pertencer a ela. Representa, com isso, a salvação, a posição social e a firmeza financeira, sendo aceito pelos outros segundo o hábil e sagaz valor que a si mesmo atribui.

No Sul, a tensão entre as classes superiores antiga e nova freqüentemente se torna mais dramática que em outras regiões, pois ali as velhas famílias tinham por base a propriedade da terra e a economia agrícola. A síntese da nova riqueza com a velha posição social, que naturalmente vem ocorrendo desde a Guerra Civil, foi acelerada com a depressão e a II Guerra Mundial. A velha aristocracia sulista, tanto na imagem da ficção como nos fatos revelados pelas pesquisas, freqüentemente se encontra em lamentável estado de decadência. Se não unir-se à classe ascendente que baseia sua fortuna na indústria e no comércio, certamente desaparecerá, pois com o tempo, não havendo dinheiro bastante, a posição social se transforma apenas numa esquisitice ignorada. Sem dinheiro suficiente, a dignidade reservada e o alheamento, que se satisfaz em si mesmo, passam a parecer declínio e mesmo decadência.

A ênfase atribuída à descendência familiar, juntamente com esse alheamento, tende a fortalecer a posição das pessoas mais velhas, especialmente das mulheres, que se tornam juízes da conduta dos jovens. Tal situação não se presta ao casamento das moças da classe superior antiga com os rapazes de uma classe abastada nova mas em ascensão. Não obstante, a industrialização das cidades pequenas aos poucos vai rompendo as velhas posições sociais e formando novas: o aparecimento do industrial e do comerciante enriquecido inevitavelmente leva ao declínio da aristocracia proprietária de terras. No Sul, bem como em outras regiões, as grandes exigências de capital para as empresas agrícolas em escala compensadora, bem como impostos favoráveis e subsídios aos "agricultares", levaram à formação de uma nova classe superior tanto na cidade como no campo.

A nova e a velha classe superior olham-se, portanto, nas cidades menores com considerável tensão, com algum desprezo
e com admiração invejosa. O homem da nova classe superior vê o outro como dono de um prestígio que gostaria de ter, mas também como um fóssil barrando caminho a importante movimento comercial e político, e como um provinciano, preso ao meio local, sem visão bastante para erguer-se e avançar. O membro da antiga classe superior, por sua vez, vê o novo e o considera como extremamente preocupado com o dinheiro, como alguém que ganhou dinheiro e anseia por mais, mas que não adquiriu o trajeto social ou o estilo de vida culta adequado à sua posição financeira, e que não se interessa realmente pela vida cívica da cidade, exceto na medida em que lhe é possível utilizá-la em benefício de suas finalidades pessoais e alheias a ela.

Quando se choca com o prestígio da velha classe superior em questões de negócios ou política ou civismo, o homem da nova classe superior freqüentemente traduz aquele prestígio em "velhice", que em sua mente se associa com o modo tranqüilo, "antiquado", o ritmo mais lento e as idéias políticas atrasadas da velha classe superior. Sente que essas pessoas não usam seu prestígio para ganhar dinheiro, ao contrário do que faz a nova classe superior. Não compreende o velho prestígio como algo a ser desfrutado, vendo-o apenas em sua relevância política e econômica: quando não dispõem dele, o prestígio é alguma coisa que os atrapalha.2



Notas:

1 Grande parte deste capítulo baseia-se em minhas observações e entrevistas realizadas em cerca de doze cidades médias do Nordeste, Centro-Oeste e Sul. Alguns resultados desse trabalho apareceram em "Small Business and Civic Welfare, Report of the Smaller War Plants Corporation to the Special Committee to Study Problems of American Small Business" (com Melville J. Ulmer) Senate Document N.º 135, 79.º Cong., 2.a Sessão, Washington, 1946; "The Middle Classes in Middle-sized Cities", American Sociological Review, outubro de 1946; e White Collar: The American Middle Classes (N. York, Oxford University Press, 1951). Também usei notas tomadas localmente durante o estudo de uma cidade de 60.000 habitantes em Illinois, durante o verão de 1945. Todas as citações deste capítulo, quando não houver outra especificação, são de minha pesquisa.

Também me vali de um resumo preparado para mim pelo Sr. J. W. Harless, no qual todas as afirmações sobre as classes superiores locais, contidas nos estudos seguintes, foram organizadas: Robert S. Lynd e Helen M. Lynd, Middletown e Middletown in Transition; Elin Anderson, We Americans; Hortense Powdermaker, After Freedom; John Dollard, Caste and Class in a Southern Town; W. Lloyd Warner e Paul S. Lunt, The Social Life e of a Modern Community; Allison Davis e Burleigh B. Gardner e Mary R. Gardner, Deep South; Liston Pope, Milhands and Preachers; John Useem, Pierre Tangent e Ruth Useem, "Stratification in a Prairie Town", American Sociological Review, julho de 1942; James West, Plainvilie, U.S.A.; Harold F. Kaufman, Defininq Prestige in a Rural Community; Evon Z. Vogt, Jr., "Social Stratification in the Rural Midwest: A Structural Analysis", Rural Sociology, dezembro 1947; August B. Hollingshead, Elmtown's Youth; W. Lloyd Warner et al, Democracy in Jonesville; M. C. Hill e Bevode C. McCall, "Social Stratification in. Georgiatown", Amer. Sociol. Rev., dezembro 1950; Alfred Winslow Jones, Life, Liberty and. Property.

A maioria dos estudos sobre prestígio na comunidade local, que é freqüentemente a unidade do estudo sociológico, é de simples interesse local. Não se pode nem mesmo dizer que seja de interesse maior pelas inovações metodológicas que possibilita, pois na verdade grande parte dessas inovações só são adequadas àquilo a que foram aplicadas — estudos de comunidades locais.

É interessante notar que na análise da cidade pequena americana, tanto o romancista como o sociólogo tiveram, cada qual a seu modo, a atenção despertada por detalhes semelhantes e chegaram a conclusões muito parecidas. Interessaram-se ambos mais pela situação social do que pelo poder. O romancista ocupou-se de costumes e dos efeitos frustradores da vida na pequena cidade, nas relações e na personalidade humanas, o sociólogo não dedicou muita atenção à pequena cidade como uma estrutura de poder, e muito menos como unidade no sistema de poder nacional. A semelhança de seus efeitos descritivos é revelada pelo fato de que, apesar das provas que encerram, os infindáveis "estudos de comunidades" dos sociólogos parecem freqüentemente romances mal escritos; e os romances, sociologia bem escrita.

2 A mulher da nova classe superior tem uma imagem um pouco diversa: freqüentemente considera o prestígio da classe antiga como algo "cultural", a ser apreciado. Procura atribuir à situação dos antigos um sentido "emocional": isso ocorre especialmente entre as mulheres de profissionais liberais, que tiveram, elas mesmas, educação num "bom colégio". Tendo instrução, tempo e dinheiro para organizar os assuntos culturais da comunidade, essas mulheres da nova classe superior têm mais respeito pelo elemento "cultural" da classe antiga do que seus maridos. Assim, reconhecendo a superioridade social da classe antiga, elas acentuam os aspectos que também estão ao seu alcance. Mas essas mulheres constituem hoje o melhor público para as pretensões de posição social da velha classe superior das pequenas cidades. Em relação à classe média, elas afirmam com esnobismo: "Podem ter interesse em assuntos culturais, mas lhes faltam oportunidades, meio ou educação. Podem lucrar com as séries de conferências, mas não têm a formação capaz de organizá-las."
C. Wright Mills (1916-1962) foi um sociólogo americano. Em seus vários trabalhos, analisou a dinâmica das classes sociais e da burocracia, além do relacionamento entre a teoria e a história na análise sociológica.
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02:15
EM TODA CIDADE MÉDIA ou pequena da América um grupo superior de famílias paira acima da classe média e sobre a massa da população de funcionários de escritório e operários assalariados. Os membros dessem grupo possuem a maior parte do que existe localmente para ser possuído. Seus nomes e retratos são impressos com freqüência no jornal local, e, na realidade, o jornal é deles, como deles é a estação de rádio. Também são donos das três fábricas locais mais importantes, e da maioria das casas comerciais ao longo da rua principal; dirigem, ainda, os bancos. Associando-se uns aos outros intimamente, têm consciência do fato de pertencerem à classe líderante das famílias liderantes.

Seus filhos e filhas freqüentam a escola superior, quase sempre depois de terem cursado escolas secundárias particulares. Casam-se entre si, ou com rapazes e moças de famílias semelhantes em cidades semelhantes. Depois de bem casados, passam a possuir, ocupar, decidir. O filho de uma dessas famílias, para o sofrimento de seu pai e a fúria de seu avô, é hoje diretor de um ramo local de uma empresa de âmbito nacional. O principal médico tem dois filhos, um dos quais lhe herda a clínica; o outro — que dentro em breve se casará com a filha da segunda fábrica do lugar — provavelmente será o próximo promotor. Assim tem sido tradicionalmente, e assim é hoje nas pequenas cidades da América.

A consciência de classe não é uma característica idêntica em todos os níveis da sociedade americana: é mais evidente na classe superior. Entre a massa da população, em toda a América, há muita confusão e imprecisão nas linhas demarcatórias, no valor de posição social atribuído às roupas e casas, às formas de ganhar e gastar dinheiro. As pessoas das classes inferior e média se distinguem, naturalmente, pelos valores, coisas e experiências a que são levados pelas diferenças de renda, mas freqüentemente não têm consciência doesses valores nem de suas bases de classe.

Os da camada superior, por outro lado, talvez por serem em menor número, podem conhecer-se muito mais facilmente, manter entre si uma tradição comum, e assim ter consciência de sua espécie. Têm o dinheiro e o tempo necessário para manter seus padrões comuns. Ricos, são um grupo de pessoas mais ou menos distinto, que associando-se uns aos outros formam círculos compactos com pretensões comuns a serem reconhecidos corno as principais famílias de suas cidades.
C. Wright Mills (1916-1962) foi um sociólogo americano. Em seus vários trabalhos, analisou a dinâmica das classes sociais e da burocracia, além do relacionamento entre a teoria e a história na análise sociológica.
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01:58
Em minha tentativa de discernir a forma da elite do poder de nossa época, e com isso dar um sentido responsável ao "eles" anônimo que a massa da população contrapõe ao "nós" anônimo, começarei examinando ràpidamente os elementos superiores que a maioria das pessoas conhece bem: as novas e velhas classes superiores da sociedade local, e os 400 metropolitanos.1 Esboçarei, em seguida, o mundo das celebridades, tentando mostrar como o sistema de prestígio da sociedade americana tornou-se agora, pela primeira vez, de âmbito realmente nacional, e como os aspectos mais triviais e mais atrativos desse sistema nacional de posição social tende imediatamente a distrair a atenção de suas características mais autoritárias e justificar o poder que muitas vezes oculta.

Examinando os muito ricos e os principais executivos, indicarei como nem as "60 Famílias Americanas" nem a "Revolução dos Gerentes" proporcionam uma idéia adequada da transformação das classes superiores, tal como hoje se organizam na camada privilegiada dos ricos associados.

Depois de descrever o estadista americano como um tipo histórico, procurarei mostrar que o "governo invisível" dos observadores da Era do Progresso tornou-se bem visível, e o que se considera como o conteúdo central da política — as pressões, campanhas e as manobras no Congresso — passou, em grande parte, aos níveis médios do poder.

Ao discutir a ascendência militar, tentarei deixar claro como seus almirantes e generais assumiram posições de relevância política e econômica decisiva, e com isso encontraram muitos pontos de interesses coincidentes com os ricos associados e com o diretório político do governo visível.

Depois que essas e outras tendências se tornarem o mais visível que me fôr possível fazê-las, voltarei aos principais problemas da elite do poder, bem como à noção complementar de sociedade de massas.

O que estou afirmando é que nesta época particular, uma conjunção de circunstâncias históricas levou ao aparecimento de uma elite de poder; que os homens dos círculos que compõem essa elite, isolada e coletivamente, tomam atualmente as decisões chaves, e que devido à ampliação e centralização dos meios de poder existentes, as decisões que tomam ou deixam de tomar têm maiores conseqüências para um número de pessoas maior do que em qualquer outra época da história mundial da humanidade.

Estou afirmando também que se desenvolveu nos níveis médios de poder um impasse semi-organizado e que no nível mais baixo nasceu uma sociedade de massas que tem pouca semelhança com a imagem de uma sociedade na qual as associações voluntárias e os públicos clássicos conservam as chaves do poder. A cúpula do sistema americano de poder é muito mais unificada e mais poderosa, o fundo é mais fragmentado, e na verdade mais impotente do que geralmente supõem aqueles cuja atenção é distraída pelas unidades de poder médias, que não expressam a vontade existente nos níveis inferiores nem determinam as decisões da cúpula.



Notas:

1 Para o sentido dessa expressão, ver mais adiante capítulo III (N. do T.)
C. Wright Mills (1916-1962) foi um sociólogo americano. Em seus vários trabalhos, analisou a dinâmica das classes sociais e da burocracia, além do relacionamento entre a teoria e a história na análise sociológica.
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01:28
Os que passaram da crítica ao louvor da nova América aceitam prontamente a idéia de que a elite é impotente. Se tivessem seriedade política deveriam dizer, tomando por base sua opinião, aos que presumidamente se ocupam da política americana:1

"Dentro em pouco, vocês poderão acreditar que têm a oportunidade de lançar uma bomba ou de exacerbar ainda mais suas relações com os aliados ou os russos, que também podem lançá-la. Mas não sejam tolos ao ponto de acreditar que têm uma escolha. Não têm escolha nem oportunidade. Toda a Situação Complexa da qual vocês são apenas uma das partes do equilíbrio é resultado de Forças Econômicas e Sociais, e tal é também a situação do resultado fatídico. Portanto, fiquem calmos como o general de Tolstói, e deixem que os acontecimentos prossigam. Mesmo que vocês ajam, as conseqüências não serão as pretendidas, mesmo que vocês pretendessem alguma coisa.

"Mas se os acontecimentos marcharem bem, falem como se tivessem decidido as coisas. Pois então os homens tiveram escolhas morais e o poder de fazê-las, sendo, decerto, responsáveis.

"Mas se as coisas marcharem mal, digam que não tiveram a verdadeira escolha, e portanto não são responsáveis: eles, os outros, tiveram essa escolha e são responsáveis. Isso dará resultado mesmo que vocês tenham comandado metade das forças mundiais e sabe Deus quantas bombas e bombardeiros. Pois vocês são, na realidade, um detalhe impotente no destino histórico da época, e a responsabilidade moral é uma ilusão, embora seja de grande utilidade se tratada por um processo de relações públicas realmente alerta."

A única conclusão que se pode tirar doesses fatalismos é que se a fortuna ou a providência domina, então nenhuma elite do poder deve ser considerada, com justiça, fonte das decisões históricas, e a idéia — muito menos a exigência — de uma liderança responsável é uma noção ociosa e irresponsável. Pois uma elite impotente, joguete da história, evidentemente não pode ser considerada responsável. Se a elite de nossa época não tem o poder, não deve ser considerada responsável e, como homens numa posição difícil, merecem nossa simpatia. O povo dos Estados Unidos é governado pela fortuna soberana; ele, e sua elite, são fatalmente esmagados por conseqüências que não podem controlar. Se assim fôr, devemos todos fazer o que muitos já fizeram de fato: abandonar inteiramente a reflexão e a ação políticas, preferindo uma vida materialmente confortável e totalmente privada.

Se, por outro lado, acreditarmos que a guerra, paz, depressão e prosperidade já não são, precisamente agora, questões de "fortuna" ou "destino", mas que, agora precisamente mais do que nunca, são controláveis, então devemos indagar: controláveis por quem? A resposta deve ser: por quem mais, senão por aqueles que comandam os meios de decisão e de poder, enormemente ampliados e decisivamente centralizados? Podemos indagar ainda: por que então não controlam? E para responder a isso precisamos compreender o contexto e o caráter da elite americana de hoje.

Não há na idéia da elite impotente nada que nos impeça de formular precisamente essas perguntas, hoje as mais importantes que os políticos podem fazer. A elite americana não é onipotente nem impotente. Essas expressões são absolutos abstratos usados em público pelos porta-vozes, como desculpas ou como gabolice, mas nesses termos podemos procurar esclarecer as questões políticas à nossa frente, que exatamente agora estão acima de todas as questões de poder responsável.

Não há nada na "natureza da história" em nossa época que elimine a função primordial dos pequenos grupos que tomam decisões. Pelo contrário, a estrutura do presente é de molde a tornar essa opinião não só razoável como também convincente.

Não há nada na "psicologia do homem", ou no modo social pelo qual os homens são modelados e escolhidos para, e pelos, postos de comando da sociedade moderna, que torne pouco razoável a opinião de que eles enfrentam escolhas e que as escolhas que fazem — ou deixam de fazer — têm conseqüências históricas.

Assim, os homens políticos têm toda razão de considerar a elite do poder americana responsável por uma ampla margem de fatos que constituem a história do presente.

É moda, ainda hoje, supor que não existe elite do poder, tal como foi moda na década de 1930 supor que um grupo de bandidos da classe dominante era a fonte de toda a injustiça social e mal-estar público. Estou longe de considerar que uma classe dominante assim simples e unilateral pudesse localizar-se firmemente como a principal mola da sociedade americana, tal como estou longe de supor que todas as modificações históricas na América de hoje são simplesmente fruto de uma corrente impessoal.

A opinião de que tudo não passa de uma correnteza cega é, em grande parte, uma projeção fatalista de um sentimento pessoal de impotência e talvez, quando se atuou politicamente segundo um princípio, de amenizar a culpa alheia.

A opinião de que a história é devida à conspiração de um grupo de bandidos facilmente localizáveis, ou de heróis, é também uma projeção apressada do esforço difícil para compreender como as modificações na estrutura da sociedade abrem oportunidades às várias elites e como estas se aproveitam ou não da situação. Aceitar qualquer uma dessas opiniões — da história como uma conspiração ou da história como uma correnteza — é relaxar o esforço de compreender os fatos do poder
os processos dos poderosos.



Notas:

1 Essa formulação me foi sugerida pela apresentação da moralidade da escolha, feita por Joseph Wood Krutch, em The Measure of Man (Indianápolis, Bobbs-Merrill, 1954)
C. Wright Mills (1916-1962) foi um sociólogo americano. Em seus vários trabalhos, analisou a dinâmica das classes sociais e da burocracia, além do relacionamento entre a teoria e a história na análise sociológica.
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01:04
Não é minha tese a de que em todas as epocas da história humana e em todas as nações, uma minoria criadora, uma classe dominante, uma elite onipotente, condiciona os fatos históricos. Essas afirmações, quando cuidadosamente examinadas, revelam-se meras tautologias,1 e mesmo quando não o são, tem um caráter tão geral que se tornam inúteis na tentativa de compreender a história do presente. A definição mínima da elite do poder como os que tomam as decisóes de importancia a serem tomadas não significa que os membros dessa elite sejam sempre os fazedores da história, nem, por outro lado, que jamais o sejam. Não devemos confundir a concepção da elite, que desejamos definir, como uma teoria sobre seu papel, ou a teoria de que seja a mola da história de nossa epoca. Definir a elite, por exemplo, como "os que governam a America" é menos definir urn conceito do que levantar uma hip6tese sObre o papel e o poder dessa elite. Não importa a nossa definição, o poder de seus membros esta sujeito a variagóes histOricas. Se, dogmaticamente, tentarmos incluir nela essa variação, estaremos limitando ingenuamente o use de um conceito necessário. Se insistirmos em que a elite seja definida como uma classe rigorosamente coordenada que domina de forma continua e absoluta, estaremos afastando da interpretação muitos aspectos que uma definição mais modesta poderia abrir a observação. Em suma, nossa definição da elite do poder não pode encerrar um dogma sObre o grau e a forma de poder que os grupos dominantes têm em tOda parte. E muito menos deve permitir que se infiltre em nossa discussão uma teoria da história.

Durante a maior parte da existência humana, as mudanças históricas não foram visiveis aos que delas participavam, ou mesmo levavam a cabo. O Egito e Mesopotâmia antigos, por exemplo, duraram cerca de 400 geraçóes com apenas pequenas modificações em sua estrutura básica. Isso representa um período de tempo seis vezes e meia o de tOda a Era Cristã, que tem somente umas 60 gerações; e cerca de 80 vezes maior do que as cinco geraçóes da existencia dos Estados Unidos. Mas hoje o ritmo de mudança é tão rapido, e os meios de observação tão acessiveis, que a influencia mútua entre acontecimento e decisão parece, com freqiiencia, ser historicamente bem visível, bastando apenas que olhemos cuidadosamente e de um ponto de observação adequado.

Quando os jornalistas, que tudo sabem, nos dizem que "os acontecimentos, não os homens, modelam as grandes decisOes", estão fazendo eco à teoria da história como Fortuna, Acaso, Destino ou obra da Mão Invisivel. Pois "acontecimentos" é apenas uma palavra moderna para essas ideias antigas, que isolam o homem da criação do processo histórico, já que tOdas levam a acreditar que a história se faz à revelia dos homens. Que a história é uma correnteza sem dominio; que dentro dela há ação, mas não há feitos; que a história é apenas acontecimento e fato que ninguem pretendeu.2

O curso dos acontecimentos em nossa época depende mais de uma série de decisões humanas do que de qualquer destino inevitável. O sentido sociológico de "destino" e simplesmente este: quando as decisões são, numerosas e de pequenas consequências, todas elas se somam dando um resultado não pretendido pelo homem — a história como destino, portanto. Mas nem todas as épocas são igualmente fatídicas. À medida que o círculo dos que decidem se estreita, os meios de decisão se centralizam e as conseqüências das decisões se tornam enormes, então o curso dos grandes acontecimentos freqüentemente depende das decisões de determinados círculos. Isso não significa necessariamente que o mesmo círculo de homens passa de um acontecimento a outro, de modo que toda a história seja apenas um enredo de sua autoria. O poder da elite não significa necessariamente que a história também não se modele por uma série de pequenas decisões, não conscientes. Não significa que uma centena de pequenas combinações, concessões e adaptações não se possam fundir para constituir a política existente e o acontecimento vivo. A idéia da elite do poder não subentende nada sobre o processo de tomar decisões: é um esforço de deliminar as áreas sociais dentro das quais se desenrola este processo, qualquer que seja seu caráter. É um conceito sobre quem está envolvido pelo processo.

O grau de previsão e controle dos que participam das decisões de importância pode também variar. A idéia de uma elite do poder não significa que as estimativas e riscos calculados que servem de base às decisões não estejam freqüentemente errados, e que as conseqüências sejam por vezes — na realidade, freqüentemente — imprevistas. Muitas vezes, os que tomam decisões são iludidos pela sua incapacidade e cegados pelos seus próprios erros.

Não obstante, em nossa época, chega o momento crucial, e então os pequenos círculos de fato decidem ou deixam de decidir. Em ambos os casos, são uma elite do poder. O lançamento da bomba-A sobre o Japão foi um desses momentos; a decisão sobre a Coréia foi outro; a confusão sobre Quemoy e Matsu, e antes de Dienbienphu, foram desses momentos; a seqüência de manobras que envolveram os Estados Unidos na II Guerra Mundial foi um desses momentos. Não é verdade que parte da história de nossa época se compõe de tais momentos? E não é isso o que se quer dizer, ao afirmar que vivemos numa época de grandes decisões, de poder decisivamente centralizado?

A maioria de nós não procura dar um sentido à nossa idade acreditando, como os gregos, numa repetição eterna, nem pela fé cristã numa salvação futura, nem por qualquer marcha firme do progresso humano. Muito embora não reflitamos sobre tais assuntos, possivelmente acreditamos, com Burckhardt, que vivemos numa simples sucessão de acontecimentos, que a continuidade pura é o único princípio da história. A história é apenas um fato após outro, não tem sentido, não representa a realização de uma determinada trama. É certo, evidentemente, que nossa percepção da história da época é afetada pela crise. Mas raramente olhamos além da crise imediata ou das crises que acreditamos estarem à nossa frente. Não acreditamos no destino ou na providência e supomos, sem falar nisso, que "nós" — como nação — podemos modelar decisivamente o futuro, mas que "nós" como indivíduos por alguma razão não o podemos fazer.

Qualquer sentido que a história tenha, "nós" teremos de criá-lo pelas nossas ações. Não obstante, a verdade é que embora estejamos todos dentro da história, nem todos possuímos igual poder de fazê-la. Pretender o contrário é um absurdo sociológico e uma irresponsabilidade política. É absurdo porque qualquer grupo ou indivíduo é limitado, primeiramente, pelos meios técnicos e institucionais de poder à sua disposição. Não temos todos o mesmo acesso aos meios de poder que existem, nem influência igual sobre sua aplicação. Pretender que "nós" sejamos todos fazedores da história é uma irresponsabilidade porque obscurece qualquer tentativa de localizar a responsabilidade pelas decisões importantes dos homens que têm acesso aos meios do poder.

Mesmo num exame superficial da história da sociedade ocidental aprendemos que o poder dos que tomam decisões é, acima de tudo, limitado pelo nível da técnica, pelos meios do poder, violência e organização que predominam em determinada sociedade. Quanto a isso, aprendemos também que há uma linha reta percorrendo toda a história do Ocidente; que os meios de opressão e exploração, de violência e destruição, bem como os meios de produção e reconstrução, foram progressivamente ampliados e cada vez mais centralizados.

À medida que os meios institucionais de poder e os meios de comunicação que os unem se tornaram mais eficientes, os homens que os dominavam viram-se no comando de instrumentos de governo sem precedente na história da humanidade. E ainda não atingimos o auge de sua evolução. Já não podemos confiar, nem nos confortar, nos altos e baixos históricos dos grupos dominantes de épocas anteriores. Nesse sentido, Hegel está certo: aprendemos com a história que não é possível aprender com ela.

Para cada época e cada estrutura social devemos procurar uma resposta à questão do poder da elite. Os fins dos homens são, freqüentemente, apenas esperanças, mas os meios são fatos mais ou menos controlados pelos homens. É por isso que todos os meios de poder tendem a se tornar fins para a elite que os comanda. E é por isso que podemos definir a elite do poder em termos dos meios do poder — como sendo os que ocupam os postos de comando. As principais questões sobre a elite americana de hoje — sua composição, sua unidade, seu poder — devem ser examinadas dando-se a devida atenção aos terríveis meios de poder à sua disposição. César podia fazer menos com Roma do que Napoleão com a França; Napoleão menos com a França do que Lênin com a Rússia, e Lênin menos com a Rússia do que Hitler com a Alemanha. Mas o que era o poder de César, em seu auge, comparado com o poder do círculo interno em mudança da Rússia? Os homens desses dois círculos podem fazer desaparecer grandes cidades numa única noite, e em poucas semanas transformar continentes inteiros em desertos termonucleares. O fato de que o poder tenha sido enormemente ampliado e decisivamente centralizado significa que as decisões dos pequenos grupos são hoje de maiores conseqüências.

Mas saber que os altos postos da moderna estrutura social permitem agora maiores decisões de importância, não é saber que a elite ocupante de tais postos é que faz a história. Mesmo concordando que as estruturas integradas, econômica, militar e política, são feitas de modo a permitir essas decisões, podemos sentir ainda que "elas se governam a si mesmas", que os homens nos altos postos são, em suma, levados às suas decisões pela "necessidade", o que presumidamente significa pelos papéis institucionais que desempenham e pela situação dessas instituições na estrutura total da sociedade.

Determina a elite o papel que desempenha? Ou os papéis que as instituições colocam ao seu alcance determinam o poder da elite? A resposta geral — e nenhuma resposta geral é suficiente — é que nos diferentes tipos de estruturas e épocas as elites têm relação diferente com os papéis que desempenham: nada, na natureza da elite ou na natureza da história, sugere uma resposta. É verdade também que se a maioria dos homens e mulheres assume um papel e o desempenha como se espera que faça, em virtude de sua posição, é isso exatamente o que a elite não precisa fazer, e freqüentemente não faz. Pode discutir a estrutura, a posição que ocupa dentro dela, ou a forma pela qual deve desempenhar essa posição.

Ninguém pediu ou permitiu a Napoleão que mandasse o Parlamento para casa, no 18 Brumário, e mais tarde, transformasse seu consulado num império.3 Ninguém pediu ou permitiu a Adolf Hitler proclamar-se "Líder e Chanceler" no dia em que morreu o Presidente Hindemburgo, abolir ou usurpar funções fundindo a presidência e a chancelaria. Ninguém pediu ou permitiu a Franklin D. Roosevelt tomar a série de decisões que levou à entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial. Não foi a "necessidade histórica", mas um homem chamado Truman que, com alguns outros homens, decidiu lançar uma bomba sobre Hiroxima. Não foi a necessidade histórica, mas uma discussão dentro de um pequeno círculo que derrotou a proposta do almirante Radford de bombardear tropas antes de Dienbienphu. Longe de depender da estrutura das instituições, as elites modernas podem esmagar uma estrutura e fazer outra na qual desempenhem papéis totalmente diferentes. De fato, essa destruição e criação de estruturas institucionais, com todos os seus meios de poder, quando os acontecimentos parecem ser favoráveis, é exatamente o que ocorre com a "grande liderança", ou, quando os acontecimentos não marcham bem, com a grande tirania.

Alguns homens da elite são, decerto, determinados tlpicamente pelo papel, mas outros são, por vezes, os que determinam esse papel. Determinam não apenas o papel que desempenham, mas o papel de milhões de outros homens. A criação de papéis de importância capital e seu desempenho também capital ocorre mais prontamente quando. as estruturas sociais estão sofrendo transições históricas. É claro que o desenvolvimento internacional dos Estados Unidos, até chegarem a ser uma das duas "grandes potências" — junto com os novos meios de aniquilação e de domínio psíquico e administrativo — fez deles, nos anos médios do século XX, precisamente esse elemento histórico capital.

Não há nada na história que nos leve a crer ser impossível a uma elite do poder fazê-la. Na verdade, a vontade desses homens é sempre limitada, mas jamais os limites foram tão amplos, pois jamais os meios de poder foram tão grandes. É isso que torna nossa situação tão precária, e torna ainda mais importante uma compreensão dos poderes e limitações da elite americana. O problema da natureza e do poder dessa elite é atualmente a única forma realista e séria de levantar novamente o problema do governo responsável.



Notas:

1 Como no caso, bastante notavel, de Gaetano Mosca, A Classe Dominante. Para uma penetrante analise de Mosca, ver Fritz Morstein Marx, "The Bureaucratic State", Review of Politics, vol. I, 1939. Cf. também Mills, "On Intellectual Craftsmanship", abril de 1952, mimeografado, Columbia College, 1955.

2 Cf. Karl Löwith, Meaning in History (University of Chicago Press, 1949), pags. 125 e segs., para observagOes concisas e penetrantes sObre as varias principais filosofias da histeria.

3 Alguns desses aspectos são extraídos de Gerth e Mills, Character and Social Structure. Sobre os homens que determinam seu papel e os que são por êle determinados, ver também Sidney Hook, O Herói na História.
C. Wright Mills (1916-1962) foi um sociólogo americano. Em seus vários trabalhos, analisou a dinâmica das classes sociais e da burocracia, além do relacionamento entre a teoria e a história na análise sociológica.
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21 de out de 2008
03:46
Essas diversas noções de elite, quando devidamente compreendidas, ligam-se intrincadamente umas às outras, e utilizaremos todas neste exame do êxito americano. Estudaremos cada uma das várias altas rodas como fonte de candidatos para a elite, e o faremos em termos das principais instituições que constituem a sociedade total da América. Dentro de cada uma delas e entre elas, estabeleceremos as inter-relações entre riqueza, poder e prestígio. Mas nossa principal preocupação é com o poder dos que hoje ocupam os postos de comando, e com o papel que desempenham na história de nossa época.

Essa elite pode ser considerada onipotente, e seu poder como um grande projeto oculto. No marxismo vulgar, os acontecimentos e tendências são explicados pela referência à "vontade da burguesia"; no nazismo, pela referência à "conspiração dos judeus"; pela pequena direita da América de hoje, por uma referência à "força oculta" dos espiões comunistas. Segundo essas noções da elite onipotente como causa histórica, ela não é jamais um agente totalmente visível. É, de fato, um substituto secular da vontade de Deus, realizando-se numa espécie de destino providencial, exceto pelo fato de que os homens que não são a elite podem opor-se a ela e mesmo superá-la.1

A opinião oposta — da elite impotente — é atualmente muito popular entre os observadores de espírito liberal. Longe de ser onipotente, a elite é considerada como tão dispersa que lhe falta coerência como força histórica. Sua invisibilidade não é a do segredo, mas da multidão. Os que ocupam os postos formais da autoridade estão em tal posição de xeque-mate — pelas outras elites que exercem pressão, ou pelo público como eleitorado, ou pelos códigos constitucionais — que, embora possa haver classes superiores, não há uma classe dominante. Embora possa haver homens de poder, não há uma elite de poder; embora possa haver um sistema de estratificação, não tem realmente uma cúpula. No caso extremo, essa opinião da elite como enfraquecida pela concessão e desunida até a nulidade, é um substituto do destino coletivo impessoal, pois segundo tal opinião as decisões dos homens visíveis nos círculos superiores não têm significação na história.2

Internacionalmente, a imagem de uma elite onipotente tende a predominar. Todos os fatos bons e agradáveis são prontamente atribuídos pelos fazedores de opinião aos líderes de seu país; todos os acontecimentos maus e experiências desagradáveis são imputados ao inimigo externo. Em ambos os casos, a onipotência de maus governantes ou dos líderes virtuosos é implícita. Dentro do país, a utilização dessa retórica é um pouco mais complicada: quando os homens falam do poder de seu partido ou círculo, eles e seus líderes são, certamente, impotentes — só o "povo" é onipotente. Mas quando falam do poder do partido ou do círculo de seu adversário, atribuem-lhe a onipotência — o "povo" é, então, implacavelmente enganado.

De modo geral, os homens de poder na América tendem, devido a uma convenção, a negar que sejam poderosos. Nenhum americano se candidata para dominar ou mesmo governar, mas apenas para servir; não se torna um burocrata ou mesmo um funcionário, mas um servidor público. E hoje em dia, como já assinalei, essa atitude tornou-se uma característica padronizada dos programas de relações públicas de todos os homens do poder. Tornou-se parte tão firme do estilo do exercício do poder que os autores conservadores prontamente a interpretam, erroneamente, como indício de uma tendência para uma "situação de poder amorfo".

Mas a "situação de poder" da América é hoje menos amorfa que a perspectiva dos que a consideram como uma confusão romântica. É menos uma "situação" simples e momentânea do que uma estrutura graduada e durável. Se os ocupantes dos postos mais altos não são onipotentes, também não são impotentes. É a forma e a altura da gradação do poder que devemos examinar para compreender o grau de poder tido e exercido pela elite.

Se o poder de decidir sobre problemas nacionais fosse partilhado de forma absolutamente igual, não haveria uma elite do poder; na realidade, não haveria gradação de poder, mas somente uma homogeneidade radical. No extremo oposto, se a capacidade de decisão fosse absolutamente monopolizada por um pequeno grupo, não haveria gradação do poder — haveria simplesmente esse pequeno grupo no comando, e abaixo dele, sem distinção, as massas dominadas. A sociedade americana de hoje não representa nenhum desses dois extremos, mas concebê-los não é por isso menos útil: faz com que compreendamos mais claramente a questão da estrutura do poder nos Estados Unidos e a posição que nela ocupa a elite do poder.

Dentro de cada uma das ordens institucionais mais poderosas da sociedade moderna, há uma gradação de poder. O dono de um varejo de frutas à beira da estrada não tem, em qualquer área de decisão social, economica ou política, o mesmo poder que o chefe de uma companhia de frutas multimilionária. Nenhum tenente, na tropa, pode ser tão poderoso quanto o Chefe do Estado-Maior no Pentágono. Nenhum subdelegado exerce tanta autoridade quanto o Presidente dos Estados Unidos. Assim, o problema de definir a elite do poder depende do nível em que desejamos estabelecer a linha demarcatória. Baixando esta, poderíamos definir a elite como inexistente; elevando-a, poderíamos fazer da elite um círculo realmente muito pequeno. Preliminarmente, e tendo em vista um mínimo, traçamos a linha aproximadamente, como se fosse com carvão mesmo: por elite do poder entendemos os círculos políticos, econômicos e militares que, como um complexo de igrejinhas interligadas, partilham as decisões de conseqüências pelo menos nacionais. Na medida em que os acontecimentos nacionais podem ser decididos, é a elite do poder quem os decide.

Dizer que há, dentro da sociedade moderna, gradações óbvias de poder e oportunidades de decidir, não é dizer que os poderosos estão unidos, que sabem perfeitamente o que fazem, ou que se tenham unido conscientemente numa conspiração. Enfrentaremos melhor essas questões se nos ocuparmos, em primeiro lugar, mais com a posição estrutural dos grandes e poderosos, e com as conseqüências de suas decisões, do que com as proporções de sua consciência ou da pureza de seus motivos. Para compreender a elite do poder, devemos observar três pontos principais:

I. Um deles, que acentuaremos durante toda a discussão de cada um dos círculos superiores, é a psicologia das várias elites em seus respectivos meios. Na medida em que a elite do poder se compõe de homens de origens e educação semelhantes, na medida em que suas carreiras e estilos de vida são semelhantes, há base psicológica e social para sua unidade, fundamentada no fato de serem um tipo social semelhante e de se fundirem facilmente uns com os outros. Essa forma de unidade atinge seu ápice mais frívolo na partilha do prestígio que há para ser desfrutado no mundo da celebridade. Atinge uma culminância mais sólida no fato de serem intercambiáveis as posições dentro e entre as três instituições dominantes.

II. Atrás da unidade psicológica e social que possa existir, estão a estrutura e a mecânica das hierarquias institucionais presididas pelo diretório político, pelos ricos associados e pelos altos militares. Quanto maior a escala desses domínios burocráticos, maior o alcance de suas respectivas elites de poder. A forma que tomam essas hierarquias principais e as relações que têm com as outras hierarquias determinam, em grande parte, as relações dos que as controlam. Se as hierarquias são dispersas e desunidas, as respectivas elites tendem a ser dispersas e desunidas; se têm muitas interligações e pontos de interesse coincidentes, então suas elites formam um agrupamento coerente.

A unidade da elite não é um simples reflexo da unidade das instituições, embora homens e instituições estejam sempre ligados,' e nosso conceito de uma elite do poder nos convide a determinar essa relação. Há hoje na América várias importantes coincidências de interesses estruturais entre esses domínios institucionais, inclusive no desenvolvimento de uma organização de guerra permanente, promovido por uma economia particular dentro de um vazio político.

III. A unidade da elite do poder, porém, não se baseia apenas na semelhança psicológica e no intercâmbio social, nem se baseia totalmente nas coincidências estruturais dos postos de comando e dos interesses. Por vezes, ela é a unidade de uma coordenação mais explícita. Dizer que esses três círculos superiores são cada vez mais coordenados, que essa é a base de sua unidade e que por vezes — como durante as guerras — tal coordenação é decisiva, não é dizer que a coordenação seja total ou permanente, ou mesmo que seja firme. E muito menos é dizer que a coordenação espontânea é a única, ou a principal, base de sua unidade, ou que a elite do poder tenha surgido como a realização de um plano. Mas é dizer que ao abrir a mecânica institucional de nossa época estradas aos homens que buscam interesses diversos, muitos deles foram vendo que esses interesses poderiam ser realizados mais facilmente se trabalhassem juntos, tanto nos processos informais como nos mais formais, e foi o que passaram a fazer.



Notas:

1 Os que julgam ter havido, ou haver, agentes comunistas no governo, e os que se atemorizam com isso, jamais formulam a pergunta; Bem, suponhamos que existam comunistas em altos postos, qual o poder de que dispõem?" Admitem simplesmente que os homens em altos postos, ou nesse caso mesmo os que estão em posições nas quais podem influenciar tais homens, tomam decisões sobre acontecimentos importantes. Os que julgam terem os agentes comunistas infiltrados no governo entregue a China ao bloco soviético, ou influenciado os americanos leais para que a entregassem, simplesmente supõem haver um grupo de homens que resolvem essas ques-
tões, ativamente ou pela negligência e estupidez. Muitos outros, que não acreditam serem os agentes comunistas tão influentes, mesmo assim supõem que dirigentes americanos leais perderam tudo isso por si mesmos.

2 A idéia de uma elite impotente, como teremos ocasião de ver no capítulo XI — A Teoria do Equilíbrio, é fortemente corroborada pela noção de uma economia automática na qual o problema do poder é resolvido para a elite econômica pela negação de sua existência. Ninguém tem bastante Poder para influir realmente; os acontecimentos são resultado de um equilíbrio anônimo. Também para a elite política, esse equilíbrio resolve o problema do poder. Paralelamente à economia do mercado, há a democracia sem líderes na qual ninguém é responsável por nada e todos são responsáveis por tudo. A vontade dos homens atua apenas através do funcionamento impessoal do processo eleitoral.
C. Wright Mills (1916-1962) foi um sociólogo americano. Em seus vários trabalhos, analisou a dinâmica das classes sociais e da burocracia, além do relacionamento entre a teoria e a história na análise sociológica.
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A elite que ocupa os postos de comando pode ser considerada como constituída de possuidores do poder, da riqueza e da celebridade. Estes podem ser considerados como membros do estrato superior de uma sociedade capitalista. Podem também ser definidos em termos de critérios psicológicos e morais, como certos tipos de indivíduos selecionados. Assim definida, a elite, muito simplesmente, é constituída de pessoas de caráter e energia superiores.

O humanista, por exemplo, pode conceber a "elite" não como um nível ou categoria social, mas como um grupo disperso de pessoas que procuram transcender-se, e portanto são mais nobres, mais eficientes, feitas de melhor estofo. Não importa que sejam ricas ou pobres, que tenham altas posições ou não, que sejam aclamadas ou desprezadas — são a elite por serem como são. O resto da população é a massa, que, segundo esse conceito, apaticamente mergulha numa mediocridade desconfortável.1

É esse tipo de conceito socialmente não localizado que alguns autores americanos, com tendências conservadoras, procuraram desenvolver recentemente.2 Mas a maioria dos conceitos morais e psicológicos de elite é muito menos sofisticada, ocupando-se não de indivíduos, mas do estrato como um todo. Essas idéias, na verdade, surgem sempre numa sociedade em que alguns possuem mais do que outros. As pessoas com vantagens relutam em se considerarem apenas pessoas com vantagens. Chegam a definir-se prontamente como intrinsecamente dignas daquilo que possuem; chegam a acreditar-se como constituindo "naturalmente" uma elite; e na verdade consideram seus bens e seus privilégios como extensões naturais de seu ser de elite. Nesse sentido, a idéia de elite como composta de homens e mulheres com um caráter moral mais apurado é uma ideologia da elite em sua condição de camada dominante privilegiada, e isso é válido tanto quando a ideologia é feita pela própria elite ou quando outros a fazem por ela.

Nas épocas de retórica igualitária, os mais inteligentes ou mais articulados nas classes média e inferior, bem como os membros culpados da classe superior, podem ter idéias de uma contra-elite. Na sociedade ocidental, realmente, há uma longa tradição e imagens variadas do pobre, do explorado e oprimido como sendo o realmente virtuoso, bom e abençoado. Oriunda da tradição cristã, essa idéia moral de uma contra-elite, composta de tipos essencialmente superiores condenados a uma situação inferior, pode ser e tem sido usada pela massa da população para justificar uma crítica impiedosa das elites dominantes e celebrar as imagens utópicas de uma nova elite do futuro.

O conceito moral da elite, porém, nem sempre é apenas uma ideologia dos superprivílegiados, nem a contra-ideologia dos subprivilegiados. É, freqüentemente, um fato: tendo experiências controladas e privilégios selecionados, muitas pessoas da camada superior aproximam-se, com o tempo, do tipo de caráter que pretendem personificar. Mesmo abandonando — como é nosso dever — a idéia de que o homem ou a mulher da elite nasce com um caráter de elite, não precisamos afastar a idéia de que suas experiências e preparo desenvolvem neles um tipo específico de caráter.

Atualmente, devemos restringir a idéia da elite como formada de tipos superiores, pois os homens escolhidos para e modelados pelas posições mais importantes têm muitos porta-vozes e conselheiros, escritores fantasmas e contatos que lhes modificam os conceitos e criam deles imagens públicas, bem como influem em muitas de suas decisões. Há, certamente, consideráveis diferenças dentro da própria elite, sob esse aspecto, mas como regra geral na América de hoje, seria ingenuidade interpretar qualquer grupo de elite principal apenas em termos de seu pessoal ostensivo. A elite americana freqüentemente parece menos uma coleção de pessoas do que de entidades associadas, em grande parte criadas e tidas como tipos padrões de "personalidade". Até mesmo a celebridade aparentemente mais livre é, quase sempre, uma espécie de produção sintética feita semanalmente por um quadro de pessoal disciplinado que sistemàticamente pondera o efeito de piadas que a celebridade "espontaneamente" reproduz.

Não obstante, na medida em que a elite florescer como classe social, ou como um grupo de homens nos postos de comando, selecionará e formará certos tipos de personalidade, rejeitando outros. O gênero de seres morais e psicológicos em que os homens se transformam é em grande parte determinado pelos valores que aceitam e pelos papéis institucionais a eles atribuídos e deles esperados. Do ponto de vista do biógrafo, um homem das classes superiores é formado por suas relações com outros homens a ele semelhantes, numa série de pequenos grupos íntimos através dos quais passa e aos quais, durante sua vida, pode voltar. Assim concebida, a elite é um conjunto de altas rodas cujos membros são selecionados, preparados e comprovados, e aos quais se permite acesso íntimo aos que comandam as hierarquias institucionais impessoais da sociedade moderna. Se houver uma chave para a idéia psicológica da elite, é a de que combina, nas pessoas que a constituem, a consciência da impessoalidade das decisões com sensibilidades íntimas partilhadas entre si. Para compreender a elite como classe social devemos examinar tôda uma série de ambientes menores de contatos face a face, o mais óbvio dos quais, historicamente, tem sido a família da classe superior, e o mais importante, atualmente, a escola secundária "bem" e o clube metropolitano.3



Notas:

1 O ensaio mais popular destes últimos anos, que define a elite e a massa em termos de um tipo-caráter moralmente fixado, provavelmente é o de Ortega y Gasset, A Revolta das Massas.

2 V. mais adiante: XIV — O Espírito Conservador.

3 "A elite americana" constitui um grupo de imagens confusas e confundidoras, mas não obstante quando ouvimos ou usamos palavras como Classe Superior, Figurões, Mandões, Clube Milionário, os Altos e Poderosos, sentimos pelo menos vagamente que entendemos seu sentido, e por vêzes entendemos mesmo. O que não fazemos com freqüência, porém, é ligar cada uma dessas imagens com as outras. Pouco nos esforçamos para formar um quadro coerente da elite como um todo. Mesmo quando, muito ocasionalmente, tentamos isso, habitualmente chegamos a acreditar que ela não é realmente um "todo"; que, como as imagens que dela fazemos, não há uma elite e sim muitas, e que estas não são realmente ligadas entre si. Devemos compreender que até vê-la como um todo, talvez nossa impressão de que ela não exista é resultado apenas de nossa falta de rigor analítico e imaginação sociológica.

O primeiro conceito define a elite em têrmos da sociologia da posição institucional e da estrutura social que essas instituições formam; o segundo, em têrmos da estatística dos valôres escolhidos; o terceiro, em têrmos de participação de um conjunto de pessoas semelhantes a uma igrejinha; o quarto, em termos da moralidade de certos tipos de personalidade. Ou em termos menos elegantes: o que aparentam, o que têm, aquilo a que pertencem, quem realmente são.

Neste capítulo, e neste livro como um todo, tomei como genérica a primeira interpretação — a da elite definida em termos da posição institucional — e coloquei dentro dela as demais perspectivas. Essa concepção direta e simples da elite tem uma vantagem prática e duas teóricas. A primeira é que parece a forma fácil e mais concreta de atingir o problema — quando menos não seja, porque existe um volume de informação mais ou menos disponível para a reflexão sociológica sobre tais círculos e instituições.

Mas as vantagens teóricas são muito mais importantes. A definição institucional ou estrutural, primeiramente, não nos força a prejulgar por definição que de fato devemos deixar aberto à investigação. A elite concebida moralmente, por exemplo, como pessoas que possuem um certo tipo de caráter, não é uma definição final, pois além de ser um tanto arbitrária moralmente leva-nos imediatamente a perguntar por que essas pessoas têm este ou aquele tipo de caráter. Assim, devemos deixar em aberto o tipo de caráter que os membros da elite de fato possuem, ao invés de, pela definição, selecioná-los em termos de um tipo ou outro. Do mesmo modo, não desejamos, pela simples definição, prejulgar se as pessoas da elite são ou não membros conscientes de uma classe social. A segunda vantagem teórica de definir a elite em termos das principais instituições, que espero deixar clara neste livro, é o fato de permitir-nos localizar as outras três concepções da elite de forma sistemática: 1) as posições institucionais que os homens ocupam em toda a sua vida determinam suas oportunidades de obter e conservar valôres escolhidos; 2) o tipo de seres psicológicos em que se transformam é em grande parte determinado pelos valôres que assim experimentam e pelos papéis institucionais que desempenham; 3) finalmente, se êles chegam ou não a se sentir como pertencentes a uma classe social seleta, se agem ou não de acôrdo com o que consideram seus interesses — são questões também em grande parte determinadas pela sua posição institucional e, por sua vez, pelos valores selecionados que possuem e pelo caráter que adquirem.
C. Wright Mills (1916-1962) foi um sociólogo americano. Em seus vários trabalhos, analisou a dinâmica das classes sociais e da burocracia, além do relacionamento entre a teoria e a história na análise sociológica.
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20 de out de 2008
00:20
As pessoas das altas rodas também podem ser consideradas como membros de um estrato social elevado, como um conjunto de grupos cujos membros se conhecem, se vêem socialmente e nos negócios, e por isso, ao tomarem decisões, levam-se mutuamente em consideração. A elite, segundo esse conceito, se considera, e é considerada pelos outros, como o círculo íntimo das "classes sociais superiores".1 Forma uma entidade social e psicológica mais ou menos compacta; seus componentes tornaram-se membros conscientes de uma classe social. As pessoas são ou não aceitas nessa classe, havendo uma divisão qualitativa, e não simplesmente uma escala numérica, separando os que são a elite dos que não são. Têm certa consciência de si como uma classe social e se comportam, uns para com os outros, de modo diverso daquele que adotam para com os membros de outras classes. Aceitam-se, compreendem-se, casam entre si, e procuram trabalhar e pensar, se não juntos, pelo menos de forma semelhante.

Não pretendemos, pela nossa definição, prejulgar se a elite dos postos de comando pertence conscientemente a essa classe socialmente reconhecida, ou se proporções consideráveis da elite vêm de uma classe assim tão clara e distinta. São aspectos a serem investigados. Não obstante, para reconhecer o que pretendemos investigar, devemos anotar algo que todas as biografias e memórias dos ricos, poderosos e eminentes deixam claro: não importa o que mais sejam, as pessoas dessas altas rodas estão envolvidas num conjunto de "grupos" que se tocam e de "igrejinhas" intrincadamente ligadas. Há uma espécie de atração mútua entre os que "se sentam no mesmo terraço" — embora isso freqüentemente só se torne claro a eles, bem como aos outros, quando sentem a necessidade de estabelecer uma linha divisória. Somente quando, na defesa comum, compreendem o que têm em comum, cerram fileiras contra os intrusos.

A noção desse estrato dominante implica assim que a maioria de seus membros tem origens sociais semelhantes, que durante toda a sua vida mantêm uma rede de ligações informais, e que há um certo grau de possibilidade de intercâmbio de posição entre as várias hierarquias de dinheiro, poder e celebridade. Devemos notar, desde logo, que se esse estrato de elite existe, sua visibilidade social e sua forma, por motivos históricos muito sólidos, são muito diferentes do parentesco de nobres que no passado governaram várias nações européias.

O fato de que a sociedade americana jamais tenha passado por uma época feudal e de importância decisiva para a natureza da elite americana, bem como para a sociedade americana como um todo histórico. Isso significa que nenhuma nobreza ou aristocracia, estabelecida antes da era capitalista, esteve em tensa oposição a uma alta burguesia. Significa que essa burguesia monopolizou não so a riqueza, mas também o prestígio e o poder. Significa que nenhum grupo de familias nobres dominou as posições mais importantes e monopolizou os valores geralmente tidos em alta estima, e certamente que nenhum grupo o fez explicitamente por um direito herdado. Significa que nenhum alto dignitário da igreja ou nobre cortesão, nenhum latifundiário corn graus honoríficos, nem monopolizadores de altos postos do exército se opuseram a uma burguesia enriquecida, nem que em nome do nascimento e da prerrogativa resistissem corn êxito ao seu critério de realizações pessoais.

Mas isso nao significa a inexistência de estratos superiores nos Estados Unidos. O fato de ter surgido de uma "classe media" sem superiores aristocráticos reconhecidos não significa que tenha permanecido como classe media quando enormes aumentos de fortuna lhe possibilitaram uma superioridade. Sua origem e sua carência de antiguidade podem ter tornado os estratos superiores menos visíveis na América do que em outros lugares. Mas na América de hoje ha na realidade formas e alcances de riqueza e poder que as pessoas da classe media e inferior quase nao conhecem, e não chegam nem mesmo a sonhar. Há familias que, em sua fortuna, estão totalmente insuladas dos baques e guinadas econômicos dos simplesmente prósperos e dos mais abaixo na escala. Há também homens de poder que, em grupos reduzidos, tomam decisões de conseqiiências enormes para a massa da população.

A elite americana penetrou na história moderna como uma burguesia virtualmente sem oposição. Nenhuma burguesia nacional, antes ou depois, teve tais oportunidades e vantagens. Não tendo vizinhos militares, facilmente ocupou um continente isolado, pleno de recursos naturais e enormemente convidativo a uma força de trabalho disposta. Uma estrutura de poder uma ideologia para sua justificação já estavam ao alcance da mão. Contra a restrição mercantilista, herdaram o principio do laissez-faire; contra os plantadores do Sul, impuseram o principio do industrialismo. A Guerra Revolucionária pôs fim as pretensões coloniais de nobreza, enquanto os legalistas fugiam do país e muitas propriedades eram divididas. A transformação jacksoniana, corn sua revolução nas posições socials, deu fim as pretensões de monopólio de descendência pelas famílias antigas da Nova Inglaterra. A Guerra Civil rompeu o poder, e corn o tempo o prestigio, dos que no Sul de antes da luta pretendiam a maior consideração. O ritmo de toda a evolução capitalista tornou impossivel a uma nobreza desenvolver-se e manter-se na America.

Nenhuma classe dominante fixa, baseada na vida agrária florescendo na glória militar poderia deter na América o impulso histórico do comercio e indústria, ou subordinar a si a elite capitalista — como os capitalistas se subordinaram, por exemplo, na Alemanha e no Japão. Nem poderia semelhante classe, em parte alguma do mundo, conter os capitalistas dos Estados Unidos, quando a violência industrializada passou a decidir a história. Basta ver a sorte da Alemanha e do Japão nas duas guerras mundiais do seculo XX — e também a da própria Grã-Bretanha e sua classe dominante modelar, quando Nova York tornou-se a capital econômica inevitável, e Washington a capital politica do mundo capitalista ocidental.



Notas:

1 O conceito de elite constituída de membros de um estrato social elevado harmoniza-se com a idéia comum de estratificação. Tecnicamente, está mais perto do "grupo de status" do que da "classe", e foi muito bem examinado por Joseph A. Schumpeter, "Classes Sociais num Meio Etnicamente Homogêneo", Imperialismo e Classes Sociais. Cf. também seu Capitalismo, Socialismo e Democracia, parte II. Para a distinção entre "classe" e "status"
C. Wright Mills (1916-1962) foi um sociólogo americano. Em seus vários trabalhos, analisou a dinâmica das classes sociais e da burocracia, além do relacionamento entre a teoria e a história na análise sociológica.
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18 de out de 2008
19:26
As altas rodas nesses postos de comando e em torno deles são freqüentemente consideradas termos daquilo que seus membros possuem: têm uma parte maior que a dos outros nas coisas e experiências mais altamente valorizadas. Desse ponto de vista, a elite é simplesmente o grupo que tem o máximo que se pode ter, inclusive, de modo geral, dinheiro, poder e prestígio — bem como todos os modos de vida que a estes levam.1 Mas a elite não simplesmente constituída dos que têm o máximo, pois não o poderiam ter se não fosse pela sua posição nas grandes instituições, que são as bases necessárias do poder, da riqueza e do prestígio, e ao mesmo tempo constituem os meios principais do exercício do poder, de adquirir e conservar riqueza, e de desfrutar as principais vantagens do prestígio.

Entendemos como poderosos naturalmente os que podem realizar sua vontade, mesmo com a resistência de outros. Ninguém será, portanto, realmente poderoso a menos que tenha acesso ao comando das principais instituições, pois é sobre esses meios de poder institucionais que os realmente poderosos são, em primeiro lugar, poderosos. Os altos políticos e autoridades-chaves do governo controlam esse poder institucional, o mesmo ocorrendo com almirantes e generais, e os principais donos executivos das grandes empresas. Nem todo o poder, é certo, está ligado e é exercido por meio dessas instituições, mas somente dentro delas e através delas o poder será mais ou menos contínuo e importante.

A riqueza também é adquirida e conservada através das instituições. A pirâmide da riqueza não pode ser compreendida apenas em termos dos muito ricos, pois as grandes famílias milionárias são atualmente, como mais adiante veremos, complementadas pelas grandes empresas da sociedade moderna: todas as famílias muito ricas foram e são intimamente ligadas — sempre juridicamente, e por vezes também administrativamente — a uma das empresas multimilionárias.

A empresa moderna é a principal fonte de riqueza, mas no capitalismo de nossos dias a política também abre e fecha muitas estradas para a fortuna. O volume e a fonte de renda, o poder sobre os bens de consumo e o capital produtivo, são determinados pela posição dentro da economia política. Se nosso interesse pelos mito ricos vai além de seu consumo esbanjador ou sovina, devemos examinar suas relações com as modernas formas de propriedade e com o Estado, pois essas relações determinam as oportunidades que têm os homens de conseguir riquezas e receber altos rendimentos.

O grande prestígio segue cada vez mais as principais unidades institucionais da estrutura social. É evidente que o prestígio depende, e por vezes decisivamente, do acesso às máquinas de publicidade que são hoje uma característica central e normal de todas as grandes instituições da América moderna. Além disso, um traço dominante dessas hierarquias de empresa, Estado e organização militar é serem as suas principais posições cambiáveis entre si. Um dos resultados disso é a natureza cumulativa do prestígio. O desejo de prestígio pode basear-se inicialmente nas funções militares, ser em seguida expresso e ampliado por uma instituição educacional orientada por dirigentes de empresas, e finalmente desfrutado na ordem política, para o General Eisenhower e aqueles que ele represente, o poder e o prestígio finalmente se encontram no auge da carreira. Como a riqueza e o poder, o prestígio é cumulativo: quanto mais temos, mais podemos conseguir. Também esses valorez tendem a se traduzir uns nos outros: o rico verifica ser-lhe mais fácil conseguir poder do que o pobre; os que têm um status comprovam ser mais fácil controlar as oportunidades de adquirir fortuna do que os que não têm.

Se tomarmos os cem homens mais poderosos da América, os cem mais ricos, os cem mais celebrados e os afastarmos das posições institucionais que hoje ocupam, dos recursos de homens, mulheres e dinheiro, dos veículos de comunicação em massa que hoje se voltam para eles — seriam então sem poder, pobres e não celebrados. Pois o poder não pertence a um homem. A riqueza não se centraliza na pessoa do rico. A celebridade não é inerente a qualquer personalidade. Ser célebre, ser rico, ter poder, exige o acesso às principais instituições, pois as posições institucionais determinam em grande parte as oportunidades de ter e conservar essas experiências a que se atribui tanto valor.



Notas:

1 A idéia estatística de escolher um valor e dar àqueles que mais o possuem o nome de elite vem, na época moderna, do economia italiano Pareto, que assim formula sua idéia central: "Suponhamos que em todo ramo de atividade humana cada indivíduo receba um índice que represente um sinal de sua capacidade, mais ou menos como se dão notas nas várias matérias na escola. O tipo mais alto de advogado, por exemplo, receberá 10. O que não consegue um cliente, receberá 1 — reservando-se o zero para o que for um idiota consumado. Ao homem que ganhou milhões — honesta ou desonestamente — daremos 10. Ao homem que ganhou milhares, daremos 6; ao que conseguiu livrar-se da pobreza, 1, atribuindo o zero ao que nela continuou... Teremos assim uma classe de pessoas com maiores índices em seu ramo de atividade, e a essa classe damos o nome de elite." Vilfredo Pareto, A Mente e a Sociedade. Os que seguem essa interpretação terão no final das contas não uma elite, mas um número correspondente ao número de valores que selecionam. Cmo muitas formas abstratas de raciocínio, esta é útil porque nos força a pensar em termos bem definidos. Para uma utilização proveitosa desse métdo, o leitor poderá consultar a obra de Harold D. Lasswell, particularmente Politics: Who Gets What, When, How (N. York, McGraw-Hill, 1936); e para uma utilização mais sistemática, H. D. Lasswell e ABraham Kaplan, Power and Society (New Haven: Yale University Press, 1950).
C. Wright Mills (1916-1962) foi um sociólogo americano. Em seus vários trabalhos, analisou a dinâmica das classes sociais e da burocracia, além do relacionamento entre a teoria e a história na análise sociológica.
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19:01
A verdade sobre a natureza e o poder da elite não é daqueles segredos que os homens de negócios conhecem, mas não revelam. Esses homens têm teorias diversas sobre sua função na seqüência de acontecimentos e decisões. Freqüentemente, mostram-se inseguros quanto ao seu papel, e ainda mais freqüentemente permitem que temores e esperanças influam na idéia que fazem do próprio poder. Quaisquer que sejam as proporções reais deste, mostram-se inclinados a ter menos consciência dele do que das resistências à sua utilização. Além disso, a maioria dos homens de negócios americanos aprendeu bem a retórica das relações públicas chegando, em certos casos, ao ponto de utilizá-la quando estão a sós e a acreditar, portanto, nela. A consciência pessoal dos atores é apenas uma das várias fontes que devemos examinar para compreender as altas rodas. No entanto, muitos que não acreditam na existência da elite, ou pelo menos que esta possa ter conseqüências, baseiam seus argumentos naquilo que os homens de negócios pensam a seu respeito, ou pelo menos no que afirmam em público.

Há, porém, outra perspectiva: os que sentem, mesmo vagamente, que uma elite compacta e poderosa, de grande importância, predomina atualmente na América, freqüentemente baseiam essa impressão na tendência histórica de nossa época. Experimentaram, por exemplo, a preponderância do fato militar, e disso deduziram que generais e almirantes, bem como outros homens que tomam decisões influenciados por eles, devem ser enormemente poderosos. Ouviram dizer que o Congresso abriu mão novamente, em favor de um punhado de homens, de decisões claramente relacionadas com o problema da guerra ou da paz. Sabem que a bomba foi lançada sobre o Japão em nome dos Estados Unidos da América, embora não tivessem sido consultados sobre isso. Sentem que vivem numa época de grandes decisões e sabem que não estão influindo nelas. Por isso, ao considerarem o presente como história, julgam que em seu centro, tomando ou deixando de tomar decisões, deve haver uma elite do poder.

De um lado, os que participam desse sentimento sobre os grandes acontecimentos históricos presumem haver uma elite cujo poder é grande. Do outro, os que ouvem atentamente os relatórios dos homens aparentemente ligados às grandes decisões com freqüência não acreditam na existência de uma elite cujos poderes tenham conseqüências decisivas.

Ambas as opiniões devem ser levadas em conta, mas nenhuma delas é exata. O caminho para a compreensão do poder da elite americana não está apenas no reconhecimento da escala histórica dos acontecimentos nem na aceitação do testemunho pessoal dos homens que aparentemente tomam decisões. Atrás destes e atrás dos acontecimentos da história, ligando uns aos outros, estão as principais instituições da sociedade moderna. Essas hierarquias do Estado, empresas e exército constituem os meios do poder, e como tal são hoje de uma importância sem antecedentes na história humana — e em sua cúpula, estão os pontos de comando da sociedade moderna, que nos proporcionam a chave sociológica da compreensão do papel das altas rodas na América.

Dentro da sociedade americana, a base do poderio nacional está hoje nos domínio econômico, político e militar. As demais instituições são marginais para a história moderna e, ocasionalmente, subordinadas àquelas três. Nenhuma família é tão poderosa nos assuntos nacionais como qualquer uma das principais empresas; nenhuma igreja tem um poder tão direto na biografia externa dos jovens na América de hoje como o da organização militar; nenhum colégio é tão poderoso na influência sobre os acontecimentos do momento como o Conselho de Segurança Nacional. As instituições religiosas, educacionais e familiares não são centros autônomos do poder nacional; pelo contrário tais áreas descentralizadas são cada vez mais influenciadas pelos três grandes, onde ocorrem agora os fatos de conseqüências decisivas e imediatas.

Famílias, igrejas e escolas adaptam-se à vida moderna; governos, exércitos e empresas fazem essa vida moderna, e ao, fazê-la, transformam as instituições menores em meios para seus fins. As organizações religiosas fornecem capelães às forças armadas, onde estes são usados para aumentar a eficiência da disposição para matar. As escolas selecionam e preparam homens para seus empregos em empresas e suas tarefas especializadas nas forças armadas. A família extensa foi há muito tempo decomposta pela revolução industrial, e filho e pai são hoje removidos da família, pela força se necessário, sempre que o exército do Estado os convoca. E os símbolos de todas essas instituições menores são usados para legitimar o poder e as decisões dos três grandes.

O destino do indivíduo moderno depende não apenas da família onde nasceu, ou na qual ingressa pelo casamento, mas cada vez mais da empresa onde passa as horas mais vigorosas de seus melhores anos. Não apenas da escola onde é educado em criança e na adolescência, mas também do estado, que está presente durante toda a sua vida. Não apenas da igreja onde ocasionalmente entra para ouvir a voz de Deus, mas também do exército, no qual é disciplinado.

Se o Estado centralizado não pudesse confiar nas escolas particulares e públicas para inculcar a fidelidade nacionalista, seus líderes procurariam sem demora modificar o sistema educacional descentralizado. Se o índice de falência entre as 500 principais empresas fosse tão grande como o índice geral de divórcio entre os 37 milhões de casais, haveria uma catástrofe econômica em escala internacional. Se os membros dos exércitos dessem a estes apenas uma parte de sua vida proporcionalmente igual à que os crentes dão às igrejas a que pertencem, haveria uma crise militar.

Dentro de cada uma dessas três grandes ordens a unidade institucional típica ampliou-se, tornou-se administrativa e, com a força de suas decisões, centralizou-se. Atrás dessa evolução, há uma tecnologia guiando-a mesmo enquanto modela e condiciona seu desenvolvimento.

A economia — antes um grande número de pequenas unidades produtoras em equilíbrio autônomo — tornou-se dominada por duas ou três centenas de empresas gigantescas, administrativa e politicamente ligadas entre si, e que juntas controlam as rédeas das decisões econômicas.

A ordem política, outrora um conjunto descentralizado de algumas dúzias de Estados com uma débil espinha dorsal, tornou-se uma organização centralizada e executiva reunindo em si muitos poderes antes espalhados e que penetra atualmente em todas as reentrâncias da estrutura social.

A ordem militar, antes uma frágil organização num contexto de desconfiança alimentado pelas milícias estaduais, passou a ser a mais ampla e mais cara das facetas do governo, e, embora bem versada no sorriso das relações públicas, tem agora toda a impiedosa e rude eficiência de um domínio burocrático em expansão.

Em cada uma dessas áreas institucionais, os meios de poder ao alcance dos que tomam decisões aumentaram enormemente. Sua capacidade executiva central foi ampliada, e criaram-se e fortaleceram-se rotinas administrativas modernas.

À medida que cada um desses domínios se amplia e centraliza, as conseqüências de suas atividades se tornam maiores, e seus contatos com os outros domínios aumentam. As decisões de um punhado de empresa influem nos acontecimentos militares e políticos, além dos econômicos, em todo o mundo. As decisões da organização militar repousam sobre a vida política, e a afetam, bem como o nível mesmo da atividade econômica. As decisões tomadas no domínio político determinam as atividades econômicas dos programas militares. Já não existem, de um lado, uma ordem econômica, e do outro, uma ordem política encerrando uma organização militar sem importância para a política e os lucros. Há, isso sim, uma economia política ligada, de mil modos às instituições e decisões militares. De cada lado da divisão do mundo que passa pela Europa central e em volta das fronteiras asiáticas, há uma ligação cada vez maior entre as estruturas econômica, militar e política.1 Se há intervenção governamental na economia das grandes empresas, há também interferência destas no processo de governo. No sentido estrutural, esse triângulo de poder é a fonte das diretorias interligadas, de grande importância para a estrutura histórica do presente.

Essa interligação se revela claramente em todos os pontos de crise da moderna sociedade capitalista — nas depressões, nas guerras e nas altas repentinas do mercado. Os homens que tomam decsiões são, então, levados à consciência da interdependência das principais ordens institucionais. No século XIX, quando a esala de todas as instituições era menor, sua integração liberal se realizava na economia automática, por um jogo autônomo das forças do mercado, e no domínio político automático, pelas negociações e pelo voto. Supunha-se então que do desequilíbrio e atrito que se seguiam às limitadas possibilidades de decisão, surgisse no devido tempo um novo equilíbrio. Tal suposição já não é possível, nem é feita pelos homens na cúpula de cada uma das três hierarquias dominantes.

Devido ao alcance de suas conseqüências, as decisões — ou indecisões — em qualquer uma delas se ramificam pelas outras, e por isso as grandes decisões são coordenadas ou levam a uma indecisão preponderante. Nem sempre foi assim. Quando a economia era constituída de numerosos pequenos homens de negócios, por exemplo, muitos podiam falir e as conseqüências continuariam sendo apenas locais — as autoridades políticas e militares não intervinham. Mas agora, devido às expectiativas políticas e aos compromissos militares, poderão permitir que as unidades chaves da economia privada se afundem numa depressão? Cada vez mais intervêm nas questões econômicas, e com isso as decisões fundamentais em cada ordem são fiscalizadas por agentes das duas outras, e as estruturas econômica, militar e política se interligam.

Na cúpula de cada um desses três domínios ampliados e centralizados surgiram as altas rodas que constituem as elites econômica, política e militar. No alto da economia, entre as grandes empresas, estão os principais executivos; no alto da ordem política, os membros dos diretórios políticos; no alto da organização militar, a elite dos soldados-estadistas se comprime em torno dos Estados-Maiores e do escalão superior. À medida que esses domínios coincidem entre si, as decisões passam a ser totais em suas conseqüências, e os líderes desses três domínios do poder — os senhoras da guerra, os chefes de empresas e o diretório político — se reúnem para formar a elite do poder da América.



Notas:

1 Cf. Hans Gerth e C. Wright Mills, Character and Social Structure (N. York, Harcourt, Brace, 1953), págs. 457 e segs.
C. Wright Mills (1916-1962) foi um sociólogo americano. Em seus vários trabalhos, analisou a dinâmica das classes sociais e da burocracia, além do relacionamento entre a teoria e a história na análise sociológica.
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18:52
O poder de influência dos homens comuns é circunscrito pelo mundo do dia-a-dia em que vivem, e mesmo nesses círculos de emprego, família e vizinhança freqüentemente parecem impelidos por forças que não podem compreender nem governar. As "grandes mudanças" estão além de seu controle, mas nem por isso lhes afetam menos a conduta e as perspectivas. A estrutura mesma da sociedade moderna limita-os a projetos que não são seus, e de todos os lados aquelas mudanças pressionam de tal modo os homens e mulheres da sociedade de massas que estes se sentem sem objetivo numa época em que estão sem poder.

Mas nem todos os homens são comuns, nesse sentido. Sendo os meios de informação e de poder centralizados, alguns deles chegam a ocupar na sociedade americana posições das quais podem olhar, por assim dizer, para baixo, para o mundo do dia-a-dia dos homens e mulheres comuns, suscetível de ser profundamente atingido pelas decisões que tomam. Não são produtos de seus empregos — criam e eliminam empregos para milhares de outros; não estão limitados por simples responsabilidades de família — podem escapar delas. Vivem em hotéis e casas, mas não estão presos a nenhuma comunidade. Não precisam apenas "atender as exigências da hora e do momento", pois em parte criam essas exigências e levam outros a atendê-las. Quer exerçam ou não seu poder, a experiência técnica e política que dele têm transcende, de muito, a da massa da população. O que Jacob Burckhardt disse dos "grandes homens", a maioria dos americanos bem poderia dizer de sua elite: "São tudo o que nós não somos."1

A elite do poder é composta de homens cuja posição lhes permite transcender o ambiente comum dos homens comuns, e tomar decisões de grandes conseqüências. Se tomam ou não tais decisões é menos importante do que o fato de ocuparem postos tão fundamentais: se deixam de agir, de decidir, isso em si constitui freqüentemente um ato de maiores conseqüências do que as decisões que tomam. Pois comandam as principais hierarquias e organizações da sociedade moderna. Comandam as grandes companhias. Governam a máquina do Estado e reivindicam suas prerrogativas. Dirigem a organização militar. Ocupam os postos de comando estratégico da estrutura social, no qual se centralizam atualmente os meios efetivos do poder e a riqueza e a celebridade de que usufruem.

A elite do poder não é de governantes solitários. Conselheiros e consultores, porta-vozes e promotores de opinião são, freqüentemente, os capitães de seus ensamentos e decisões superiores. Imediatamente abaixo da elite estão os políticos profissionais dos níveis médios do poder, no Congresso, e nos grupos de pressão, bem como entre as novas e as antigas classes superiores da cidade, da metrópole e da região. De mistura com eles, por processos curiosos que examinaremos, estão as celebridades profissionais, vivendo de serem exibidas constantemente, mas que nunca, enquanto permanecem celebridades, são exibidas o suficiente. Se tais celebridades não estão à testa de qualquer hierarquia dominante, freqüentemente têm, por outro lado, o poder de distrair a atenção do público ou proporcionar sensações às massas ou, mais diretamente, de ser ouvidas pelos que ocupam posições de poder direto. Mais ou menos independentes, como críticos da moralidade e técnicos do poder, como porta-vozes de Deus e criadores da sensibilidade em massa, tais celebridades e consultores fazem parte do cenário imediato no qual o drama da elite é representado. Mas o drama em si está centralizado nos postos de comando das principais hierarquias institucionais.



Notas:

1 Jacob Burckhardt, Força e Liberdade.
C. Wright Mills (1916-1962) foi um sociólogo americano. Em seus vários trabalhos, analisou a dinâmica das classes sociais e da burocracia, além do relacionamento entre a teoria e a história na análise sociológica.
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