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Esta não é uma tradução, mas uma transcrição. É um dos capítulos do livro Análise de Temas Sociais, vol. 1., 2ª edição, de 1964. O texto evidentemente é pertinente ao tema do blog, caso contrário eu não o postaria. As únicas alterações que eu fiz foram na acentuação, que é arcaica no livro. No caso das consoantes mudas, elas foram preservadas por serem uma opção do próprio autor, que pretendia manter evidentes as raízes etimológicas das palavras.

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Toda vez que a aristocracia alcança o seu período de absolutismo, e que se inicia a valorização fetichista do Estado, os poderosos apoiam-se na religião, para que ela justifique o poder absoluto que se instaura e que deseja perpetuar-se. Na época democrática do domínio político do empresário utilitário, então o Estado é a encarnação de uma concepção ideológica. Há ainda os resquícios de idéias religiosas, sofisticadamente mobilizadas para justificar o poder discricionário das castas dominantes, mas buscam-se outras "razões superiores" para justificá-lo, como a necessidade de "imperar a lei" (a lei que favorece aos dominadores), o "interesse nacional" (aquele que é sempre esquecido quando entra em conflito com os interesses dos grupos de dominadores políticos, que nunca sacrificam os próprios em benefício da população em geral, em nenhum momento da História), "o bem do povo" (que sempre ocultou o bem dos grandes aproveitadores). Não fazemos afirmações gratuitas, mas fundamentadas, como veremos nesta parte crítica da História. Iremos alinhar, em breve, factos e mais factos, para comprovar o que afirmamos. Não somos originais em nossas idéias, e longe de nós querermos tomar uma atitude inédita. O que vamos citar está inscrito com letras de sangue nas páginas da História, e de lá não o apagarão os mais interessados. Mas são ocultadas, preconcebidamente, para que a juventude seja educada na ilusão e na mentira que interessa àqueles que não trepidam em sacrificar os seus semelhantes em benefício de si mesmos. Na verdade, a História é um "pesadelo de tigres", mas também é uma luminosa alvorada de promessas ocultadas, que abrem novas esperanças.

Não esqueçamos Rousseau, que, depois de haver, no "Contracto Social", combatido o absolutismo, passou-se a defendê-lo e a aconselhar o uso da religião para justificar a opressão sobre os povos. Não é uma infâmia que bocas tão detestadas, que penas tão vis de tantos homens sem fé e sem amor ao próximo conclamem os homens religiosos a servirem de esteios para a prosperidade da brutalidade organizada? Robespierre, que lavou a França em sangue, não poupou os adversários, acusando-os de "vendidos a Pitt", como o fez com os herbetistas, com a mesma velha acusação de todos os tempos, e em todos os ciclos culturais, que consiste em acusar de vendido ao estrangeiro inimigo de todos os nacionais que se opõem ao excesso de poder e de domínio de uns sobre os outros. Ele, que não poupou vidas e não teve o menor estremecimento em mandar guilhotinar inocentes, que os acusava com falsas provas, também falou em altas palavras sobre o papel da Religião. Também apelou ao Ser Supremo para justificar a esteira de sangue que deixava após si. O famoso discurso, em que falou tanto do Ser Supremo e da justificação da sua política, foi difundido por toda a França, lido em todos os lugares. Deu à sua política atributos divinos, e levantou o culto à "nação". Arrancou do Templo a "deusa Razão", que os empresários utilitários, por intermédio de seus advogados, na Revolução Francesa, haviam entronizado como a nova deusa, e substituiu-a pelo culto ao Ser Supremo, dando assim à República uma auréola divina. Mas Robespierre era um ateu descarado, porque não titubeou em realizar uma farsa para obter o que desejava, como não titubeou Mussolini, outro ateu, em tentar usar a religião para justificar os sinistros intentos do fascismo. Ao nacionalismo, que pregou, dava-lhe cores religiosas para poder mobilizar os sentimentos do povo em benefício de seu poder caricato, que passou para a História como uma das suas páginas mais ridículas, terminando com aquele fecho tragicômico de Milão, dependurado pelas pernas, e escarnecido pelas multidões revoltadas.

Caracteriza o poder (o kratos) o desejo de unicidade e de excludência, pois todo o poder quer ser absoluto. Todo poder tende ao absolutismo, e se não o alcança, é porque lhe opõem obstáculos outros desejos, que limitam a acção dos que a encarnam. O poder quer vencer as resistências, ultrapassar todas as limitações, e desmesura-se inevitavelmente. Já houve quem dissesse, para justificar o kratos absoluto, que Deus não admite nenhum poder que se lhe oponha. Como pode, pois, o Estado admitir outro poder que se lhe oponha? Idéias tão descabeladas como estas não deveriam nem sequer ser citadas, se não tivessem sido elas emitidas por homens aparentemente responsáveis, e repetidas por outros, que deveriam ter mais respeito pela sua inteligência e pela dignidade do saber humano.
Mário Ferreira dos Santos (1907-1968) foi um filósofo anarquista brasileiro. Criador da Filosofia Concreta, escreveu dezenas de livros abordando várias áreas do conhecimento, como a lógica, a ética, a sociologia, a economia, a ontologia, entre outras.
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