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Tradução de Igor César Gomes

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Para a geração de hoje, Hitler é o homem mais odiado da história, e seu regime é o arquétipo da política maligna. Essa visão não se estende às suas políticas econômicas, entretanto. Longe disso. São corroboradas por todos os governos ao redor do mundo. O Glenview State Bank of Chicago, por exemplo, recentemente elogiou a economia hitlerista em seu jornal mensal. Fazendo isso, o banco descobriu os perigos de elogiar os planos keynesianos no contexto errado.

A edição da newsletter (julho de 2003) não está online, mas seu conteúdo pode ser encontrado através da carta de protesto feita pela Anti-Deflamation League. "Apesar dos argumentos econômicos", diz a carta, "as políticas econômicas de Hitler não podem ser separadas de suas imensas ações anti-semitas, racistas e genocidas. (...) Analisar suas ações sob qualquer outra ótica faz com que se perca o ponto central".

O mesmo poderia ter sido dito sobre todas as formas de planejamento central. É errado tentar examinar políticas econômicas de qualquer Çeviatã separado da violência política que caracteriza todos os planejamentos centrais, seja na Alemanha, na União Soviética ou nos Estados Unidos. A controvérsia ilumina os caminhos nos quais a conexão entre violência e planejamento central ainda não são entendidos, nem mesmo pela ADL. A tendência dos economistas de admirar o programa econômico de Hitler é um caso relevante.

Na década de 1930, Hitler era amplamente visto como apenas mais um planejador central protecionista que reconhecia a suposta falha do livre-mercado e a necessidade de uma economia de desenvolvimento nacionalmente guiada. O economista socialista proto-keynesiano Joan Robinson escreveu que "Hitler descobriu uma cura contra o desemprego antes de Keynes ter terminado de explicá-la".

Que ações econômicas foram essas? Ele suspendeu o padrão-ouro, iniciou gigantescas obras públicas como as Autobahns, protegeu a indústria da competição estrangeira, expandiu o crédito, instituiu programas de emprego, coagiu o setor privado nas decisões de preços e produção, expandiu vastamente o exército, aplicou controles de capitais, instituiu o planejamento familiar, penalizou o fumo, criou um plano de saúde e um seguro-desemprego nacionais e impôs padrões educacionais, o que acarretou enormes déficits. O programa intervencionista nazista foi essencial para a rejeição do regime de economia de mercado e para a adoção do socialismo de um único país.

Esses tipos de programa continuam sendo ovacionados hoje em dia, mesmo com suas falhas. Eles são os bônus de toda democracia "capitalista". O próprio Keynes admirava o programa econômico nazista, escrevendo no prefácio da edição alemã de sua Teoria Geral: "[A] teoria de produção como um todo, que é o que o livro em questão se propõe a fornecer, é muito mais facilmente adaptada às condições de um estado totalitário que a teoria de produção e distribuição de um certo produto manufaturado sob condições de competição livre e de uma grande proporção de laissez-faire".

O comentário de Keynes, que pode chocar muitos, não veio do nada. Os economistas de Hitler rejeitavam o laissez-faire e admiravam Keynes, até o antecipando de diversas formas. Do mesmo modo, os keynesianos admiravam Hitler (ver George Garvy, "Keynes and the Economic Activists of Pre-Hitler Germany", The Journal of Politcal Economy, Volume 83, Issue 2, April 1975, pp. 391-405).

Mesmo em 1962, num relatório escrito para o Presidente Kennedy, Paul Samuelson elogiou Hitler implicitamente: "A história nos lembra que mesmo nos piores dias da depressão não houve escassez de especialistas para alertar sobre todos os problemas dos curativos via ações públicas. (...) Tivesse esse conselho prevalecido aqui, como prevaleceu na Alemanha pré-Hitler, a existência de nossa forma de governo poderia estar em risco. Nenhum governo moderno incorrerá nesse erro de novo".

De certo modo, isso não é surpreendente. Hitler instituiu um New Deal para a Alemanha, diferente de FDR e Mussolini apenas nos detalhes. E isso funcionou apenas no papel, no sentido que os PIBs da época refletem um caminho de crescimento. O desemprego permaneceu baixo porque Hitler, embora tenha intervido no mercado trabalhista, nunca tentou aumentar os salários além de seus níveis de mercado. Mas debaixo disso tudo, graves distorções estavam acontecendo, assim como ocorrem em qualquer economia de não-mercado. Elas podem aumentar o PIB no curto prazo (veja como os gastos governamentais aumentaram a taxa de crescimento dos EUA no segundo semestre de 2003 de 0,7% para 2,4%), mas não funcionam a longo prazo.

"Escrever sobre Hitler sem o contexto de milhões de inocentes brutalmente mortos e os dezenas de milhões que morreram lutando contra ele é um insulto a suas memórias", escreveu a ADL no protesto pela análise publicada pelo Glenview State Bank. De fato.

Mas ser realista sobre as implicações morais de políticas econômicas é a moeda de troca da profissão. Quando economistas defendem o aumento da "demanda agregada", eles não dizem detalhadamente o que isso significa. Isso significa passar por cima forçosamente das decisões voluntárias de consumidores e poupadores, violando seus direitos de propriedade e sua liberdade de associação para atingir as ambições econômicas do governo. Mesmo que esses programas funcionassem num sentido técnico, deveriam ser rejeitados por serem incompatíveis com a liberdade.

Assim o é com o protecionismo. Era a maior ambição do programa econômico de Hitler expandir as fronteiras da Alemanha para torná-la uma autarquia viável, o que significava gigantescas barreiras protecionistas às importações. O objetivo era fazer da Alemanha uma produtora auto-suficiente para que não fosse suscetível à influência externa e não estivesse sujeita às oscilações dos outros países. Foi um caso clássico de uma xenofobia economicamente contraprodutiva.

E mesmo nos EUA de hoje, políticas protecionistas estão tragicamente retornando. Somente sob a administração Bush, uma imensa gama de produtos desde madeira a microchips estão sendo protegidos de competição dos baixos preços estrangeiros. Essas políticas estão sendo combinadas com tentativas de estimular oferta e demanda através de gastos militares em larga-escala, de aventuras estrangeiras, de políticas de bem-estar, déficits e da promoção de um fervor nacionalista. Essas políticas podem criar a ilusão de uma prosperidade crescente, mas a realidade é que elas desviam recursos escassos de empregos produtivos.

Talvez, a pior parte dessas políticas seja o fato de elas serem inconcebíveis sem um estado Leviatã, exatamente como Keynes disse. Um governo grande o suficiente e poderoso o suficiente para manipular demanda agregada é suficientemente grande e forte para violar liberdades civis das pessoas e atacar seus direitos de qualquer outra forma. Políticas keynesianas (ou hitleristas) liberam a espada do estado sobre toda a população. Planejamento central, mesmo em suas insignificantes variedades, e liberdade são incompatíveis.

Desde o 11 de setembro e da autoritária resposta militar, a esquerda tem avisado que Bush é o novo Hitler, enquanto a direita condena esse tipo de retórica como um exagero irresponsável. A verdade é que a esquerda, ao fazer esses avisos, está mais correta do que se sabe. Hitler, como FDR, deixou sua marca na Alemanha e no mundo esmagando tabus contra o planejamento central e fazendo do grande governo um aparente permanente bônus das economias ocidentais.

David Raub, o autor do artigo para o Glenview, estava sendo ingênuo ao pensar que ele pudesse olhar para os fatos como a grande mídia os vê e dar o que ele pensou que fosse uma resposta convencional. A ADL está certa nesse caso: planejamento central nunca deve ser elogiado. Nós devemos sempre considerar o contexto histórico e os inevitáveis resultados políticos.
Llewellyn H. Rockwell, Jr. (1944) é presidente do Ludwig von Mises Institute e editor do Lew Rockwell.com.
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