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Foi passada uma impressão de que eu estou empenhado na formação de sociedades. Esse é um grande erro, o qual me sinto obrigado a corrigir.

Aqueles que ouviram de mim ou leram algo meu sobre o assunto sabem que um dos principais pontos no qual insisto é que a formação de sociedades ou de quaisquer outras combinações artificiais É o primeiro, maior e mais fatal erro já cometido por legisladores e reformadores. Todas essas combinações requerem a renúncia da soberania natural do INDIVÍDUO, sobre sua pessoa, tempo, propriedade e responsabilidades, ao governo da combinação. Isso tende a prostrar o indivíduo — a reduzi-lo a uma mera parte de uma máquina; responsabilizando outros por seus atos e sendo responsabilizado pelos atos e sentimentos de seus associados; ele vive & age sem o devido controle de seus assuntos, sem uma certeza quanto às conseqüências de suas ações, e quase sem a inteligência que ele se atreve a usar por sua própria conta; e conseqüentemente nunca percebe os grandes objetivos para os quais a sociedade é professadamente formada.

Alguma porção, pelo menos, daqueles que foram às audiências públicas sabe que o COMÉRCIO EQÜITATIVO é baseado num princípio exatamente oposto à combinação; esse princípio pode ser chamado Individualidade. Ele permite a cada um a posse imperturbada de sua natural e apropriada soberania sobre sua pessoa, tempo, propriedade e responsabilidades; & de ninguém se requer ou é esperado que renuncie a qualquer "porção" de sua liberdade natural ao associar-se a qualquer sociedade; nem que se torne de qualquer maneira responsável pelos atos ou sentimentos de ninguém além de si próprio; nem há qualquer arranjo pelo qual mesmo a totalidade das pessoas possa exercer qualquer governo sobre a pessoa, tempo, propriedade ou responsabilidade de um único indivíduo.

As combinações e todas as instituições construídas sobre elas são invenções do Homem; e conseqüentemente partilham mais ou menos da falta de visão humana e de outras imperfeições; ao passo que o COMÉRCIO EQÜITATIVO é um simples desenvolvimentos dos princípios, os quais, embora novos para o público, são tão antigos como a criação, e serão igualmente duráveis.

Esse entendimento é muito natural; porque sabe-se que todas as tentativas de reforma radical têm sido baseados em combinações; o fracasso de todas elas destruiu a confiança, e o público, desconhecendo qualquer outro princípio, conclui que esta é outra proposta do mesmo tipo e precisa fracassar como as outras. Eu respeito esse julgamento e acredito junto com eles que toda tentativa de melhorar as condições sociais pela formação de sociedades ou de quaisquer outras combinações artificiais (mesmo que habilmente concebidas, mesmo que possuam propósitos puros ou sejam conduzidas honestamente) deve fracassar e fracassará em seus próprios objetivos e desapontará todos que estão envolvidos nelas.

O fracasso dos experimentos no sistema comunitário em New Harmony durante os dois anos de experiência de 1825 a 1827 provaram isso suficientemente à minha mente, & me levaram à convicção de que o processo de combinação não é capaz de levar a obtenção dos grandes objetivos da sociedade, mas descobriu-se que o princípio oposto, aquele da Individualidade e o processo de DESCONEXÃO1, depois de uma próxima e severa investigação, possui ou leva ao resgate e à recuperação de todos os poderes necessários para a completa solução do grande problema social — de fato, ele pareceu prometer mais do que se pode acreditar, muita esperança; tanta que o descobridor (se devemos chamá-lo dessa forma) não ousa comunicar seus pensamentos a seus conhecidos íntimos por medo de ser considerado insano. Seu único curso, portanto, era provar tudo na PRÁTICA antes de trazê-los ao público.

Um novo curso de investigações e experimentos foi então iniciado; o primeiro dos quais foi a "Loja do Tempo" [N.T.: "Time Store"] em Cincinnati, a qual abriu em maio de 1827. Esta foi conduzida por três anos, até que foi encerrada com o propósito de levar os princípios a todos os comércios da vida; e o intervalo entre aquele tempo e o presente foi empregado (na medida em que as circunstâncias permitiriam) para avançar os desenvolvimentos ou prepará-los.

Os princípios foram aplicados ao gerenciamento e à educação das crianças, os quais mostraram o erro radical e a grande causa de derrota dessa importante matéria.

Os princípios também foram aplicados à compra e à venda de terras & quase todos os outros tipos de propriedade, e para a troca de quase todos os tipos de trabalho, incluindo aquele dos mercadores, dos advogados, dos médicos, dos professores, dos administradores de pensões, etc, e em todos os passos dessas aplicações a soberania do indivíduo foi estritamente preservada e invariavelmente respeitada. Nenhuma legislação de qualquer descrição assumiu controle sobre o indivíduo em caso algum; e tal era a completa individualidade de ação com que centenas lidaram na Loja do Tempo sem entenderem muito de seus princípios ou objetivos; mas eles perceberam que era de seus próprios interesses agir dessa forma, assim demonstrando que os negócios da comunidade podem ser trazidos a essa condição por um processo natural e irresistível; sem combinação, sem organização, sem leis, sem governo, sem a renúncia de nenhuma "porção" da liberdade natural do indivíduo; demonstrando também que a reformação não precisa esperar até que o mundo se torne instruído: a operação prática constitui um processo de reeducação que ninguém pode estimar sem a experiência, e no qual os instruídos são os que mais têm dificuldade.

Essa também foi a completa individualidade de ação de todos os experimentos que, embora centenas tenham tomado parte neles, eles não são de forma alguma distintos como uma seita, um partido ou uma sociedade; o público em geral não conhece e não os conhecerá, a não ser que cada indivíduo escolha identificar a si mesmo com esses princípios.

A influência do público é o governo real do mundo. A imprensa constrói esse poder de governo; portanto, entre as preparações para a introdução geral desses assuntos há uma simplificação da imprensa e do aparato de impressão que traz esse grande poder ao lar e ao alcance de quase qualquer pessoa de qualquer sexo que escolha usá-lo; assim, este e qualquer outro assunto de real informação é tornado independente da imprensa comum, da qual os administradores estão geralmente muito absortos ou muito interessados nas coisas como estão, sob uma influência muito grande do público ou superficiais demais em seus hábitos de pensamento para fazer justiça a esse assunto desde o início.

Os experimentos e preparações estão agora concluídos, os resultados estão registrados ou em possessão de testemunhas vivas, e agora estão se tornando o alicerce das operações práticas nesta vizinhança. Todos aqueles que queiram conhecer o assunto podem obter detalhes nas audiências públicas ou lendo THE EQUITABLE COMMERCE GAZETTE [N.T.: A Gazeta do Comércio Eqüitativo], que será publicada para esse propósito; o que vem a seguir são algumas características do COMÉRCIO EQÜITATIVO.

Ele estabelece um princípio justo e permanente de comércio que coloca um fim a todas as sérias flutuações dos preços e, conseqüentemente, a toda insegurança e ruína que essas flutuações produzem; e serve para erguer aqueles que já estão arruinados.

Ele tende a colocar um fim a todos os tipos de especulação.

Ele tem um meio circulante sólido e racional, um representante real e definido da riqueza. Ele é baseado exclusivamente no trabalho como o único capital legítimo. Esse meio circulante tem uma tendência natural de diminuir o grau do valor e do uso de dinheiro, e de finalmente torná-lo impotente; e, conseqüentemente, de libertar as massas esmagadas da fraude, iniqüidade, crueldade, corrupção e imposição que são impostas a elas.

Sendo os meio circulantes emitidos apenas por aqueles que trabalharem, eles terão repentinamente toda a riqueza e todo o poder; e aqueles que não trabalharem, sendo eles tão ricos quanto são agora, se tornariam repentinamente pobres e impotentes.

Ele abre o caminho para o emprego daqueles que o querem, por um simples arranjo que tem uma tendência natural de manter a oferta em proporção racional à demanda.

Ele resolve o grande e difícil problema da maquinaria contra o trabalho. Sobre esse princípio, na proporção que a maquinaria tira os empregos dos trabalhadores, ela trabalha para eles; e o caminho está sempre aberto para um novo emprego, já que o comércio eqüitativo abole o lucro sobre o mistério, desconsidera os costumes de aprendizagem e oferece todos os tipos de conhecimento àqueles que o querem.

A necessidade de todos de pagar com o próprio trabalho o que se consome é o único limite legítimo e efetivo ao luxo excessivo, o qual tão freqüentemente tem arruinado indivíduos, estados e impérios; e o qual trouxe a nós todos uma quase universal bancarrota.

O comércio eqüitativo não provê escritórios para serem preenchidos pelos aspirantes e ambiciosos, não fornece possibilidades para a elevação de alguns sobre as pessoas e as propriedades dos outros; não há, portanto, nenhuma tentação nele para essas pessoas; e elas não serão as primeiras a adotar o COMÉRCIO EQÜITATIVO. Ele atrai, primeiramente, os mais oprimidos, os humildes, os perseguidos, & será primeiro adotado por eles e por aqueles que não desejam viver às custas dos outros, e por aqueles entre os ricos ou pobres cujas qualidades morais ou intelectuais superiores os habilitam para apreciar algumas das bênçãos indescritíveis que resultariam de tal estado de existência humana.

Essas são algumas das mais proeminentes características do COMÉRCIO EQÜITATIVO; e será percebido que elas são precisamente as características que uma grande, redentora revolução deve possuir; mas elas são tão extraordinárias, tão fora do curso comum e corrente das coisas que elas serão denunciadas por alguns como visionárias e impraticáveis. Eu estou preparado para tudo isso, e também estou preparado para provar que todas as mais importantes aplicações dos princípios FORAM feitas; e se provaram sólidas além de todas as contradições; e para mostrar isso sobre esses princípios, é perfeitamente praticável para quase qualquer pessoa começar imediatamente a aproveitar algumas das vantagens aqui estabelecidas; e gradualmente emancipar-se da iniqüidade e sofrimento da (como é chamada) sociedade civilizada; sem se juntar a qualquer sociedade ou renunciar a qualquer "porção" de sua liberdade natural e soberania "inalienável" sobre sua pessoa, tempo ou propriedade, e sem se tornar de forma alguma responsável pelos atos ou sentimentos dos outros que estejam negociando sobre esses princípios.

JOSIAH WARREN
New Harmony, 27 de novembro de 1841.

***

Se tornou um sentimento muito comum o de que há algo profunda e radicalmente errado em algum lugar e que os legisladores se provaram incapazes de descobrir ou remediar isso.

Com toda a deferência a outros julgamentos, eu me comprometi a apontar o que parece constituir esse algo errado e suas soluções naturais, legítimas e eficientes; e vou continuar a fazer isso onde quer e quando quer que o assunto receber a atenção e respeito à qual sua indizível importância parece fazê-lo digno; é esperado que alguns, que são capazes de raciocinar corretamente, se comprometerão a investigar e (se puderem encontrar um motivo) a se opor ao COMÉRCIO EQÜITATIVO; e assim descobrir e expor a imbecilidade — a surpreendente fraqueza de qualquer oposição que possa ser levantada contra ele. A oposição, para ser percebida, precisa se restringir a este assunto e a suas tendências naturais: DESCONECTADO de todos os outros e de todas as considerações meramente pessoais.

Eu recuso todas controvérsias barulhentas, palavrosas, confusas e pessoais. Este assunto se apresenta para um calmo estudo e para uma pesquisa honesta; e, depois de colocá-lo (como eu pretendo fazer) razoavelmente perante o público, o deixarei para ser estimado por cada indivíduo de acordo com sua medida particular de entendimento, e não violarei sua individualidade através de nenhuma tentativa de limitá-la ou de levá-lo para além dela.

J.W.



Notas:

1 O grande princípio da elevação humana foi percebido ser o da SOBERANIA DE TODO INDIVÍDUO sobre sua Pessoa, Tempo, Propriedade e Responsabilidades. Isso era impraticável onde soberanias estavam conectadas. A DESCONEXÃO, ou Individualização delas, portanto, pareceu ser o processo requerido. O habitual respeito à Soberania Individual, percebeu-se, constituiria um comércio moral EQÜITATIVO. A questão então se colocou: como poderia essa completa soberania do indivíduo sobre seu próprio tempo e propriedade ser preservada através do processo de troca do comércio pecuniário em sociedade? Esse grande problema resultou na idéia de troca de tempo por tempo, Trabalho por Trabalho — DESCONECTANDO toda a riqueza natural do trabalho, cada um precificando-se pelo que se Custa a si próprio; mas sem atravessar as fronteiras naturais de sua individualidade estabelecendo um preço sobre o Valor de seu artigo ou trabalho ao recebedor dele. A DESCONEXÃO do Custo do Valor estabeleceu o fundamento do Comércio Eqüitativo pecuniário. Esse novo comércio requereu um meio circulante DESCONECTADO do dinheiro de todo tipo, representando somente o Trabalho; e assim o trabalhador se torna EMANCIPADO do dinheiro e da tirania.
Josiah Warren (1798-1874) foi o primeiro anarquista individualista americano. Em 1833, editou The Peaceful Revolutionist, considerado o primeiro períodico anarquista já publicado. Sua filosofia individualista influenciou mais tarde o pensamento de liberais como John Stuart Mill e Herbert Spencer.
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