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Esta é a tradução do capítulo 33 do livro The Machinery of Freedom (1970), "Socialism, Limited Government, Anarchy and Bikinis".

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A maioria das variedades do socialismo implicitamente assume uma unânime concordância com relação aos objetivos. Todos trabalham pela glória da nação, pelo bem comum, o que for, e todos concordam, pelo menos num sentido geral, com o que significa aquele objetivo. O problema econômico, tradicionalmente definido como o problema de alocação dos recursos limitados em objetivos diversos, não existe; a economia é reduzida a um problema de "engenharia" de como melhor usar os recursos disponíveis para alcançar o objetivo comum.

A organização de uma sociedade capitalista implicitamente assume que pessoas diferentes têm objetivos diferentes e que as instituições da sociedade precisam permitir essa diferença.

Essa é uma das coisas por trás da reclamação socialista de que o capitalismo enfatiza a competição enquanto o socialismo enfatiza a cooperação; é uma das razões por que o socialismo parece, em abstrato, um sistema tão atrativo. Se todos têm diferentes objetivos, nós estamos, em certo sentido, em conflito uns com os outros; cada um de nós deseja ter os recursos limitados disponíveis usados para atingir nossos fins. A instituição da propriedade privada permite a cooperação dentro dessa competição; nós fazemos comércio com os outros para que cada um use melhor seus recursos para atingir seus objetivos, mas o conflito fundamental dos objetivos permanece. Isso significa que o socialismo é melhor? Não mais do que o fato de que um tempo ensolarado significa que as mulheres deveriam sempre usar biquínis ou que os homens nunca deveriam carregar guarda-chuvas.

Há uma diferença entre o que as instituições permitem e o que elas requerem. Se numa sociedade capitalista todos estão convencidos de que um objetivo comum é desejável, não há nada na estrutura das instituições capitalistas para impedi-los de cooperar para atingi-lo. O capitalismo permite um conflito de objetivos; ele não o requer.

O socialismo não o permite. Isso não significa que se nós estabelecêssemos instituições socialistas todos teriam instantaneamente os mesmos objetivos. O experimento foi tentado; elas não têm. Isso significa que uma sociedade socialista funcionará somente se as pessoas tiverem os mesmos objetivos. Se elas não têm, o socialismo entrará em colapso, ou pior, se transformará, como a União Soviética, numa paródia monstruosa dos ideais socialistas.

O experimento foi feito muitas vezes numa escala mais modesta neste país. Comunas que sobrevivem começam com um objetivo comum, provido por uma religião forte ou por um líder carismático. Outras não sobrevivem.

Eu tenho encontrado precisamente o mesmo erro entre os libertários que preferem o governo limitado ao anarco-capitalismo. O governo limitado, eles dizem, pode garantir uma justiça uniforme baseada em princípios objetivos. Sob o anarco-capitalismo, as leis variam de lugar para lugar e de pessoa para pessoa, de acordo com os desejos e crenças irracionais dos diferentes consumidores a que as diferentes agências de arbitragem e proteção devem servir.

Esse argumento assume que o governo limitado é estabelecido por uma população em que a maioria ou todas as pessoas acredita nos mesmos princípios de lei. Dada tal população, o anarco-capitalismo produzirá os mesmos princípios uniformes, justos de justiça; não haverá mercado para nenhum outro. Mas assim como o capitalismo pode acomodar uma diversidade de objetivos individuais, o anarco-capitalismo pode acomodar uma diversidade de julgamentos individuais em relação à justiça.

Uma sociedade ideal objetivista com um governo limitado é superior a uma sociedade anarco-capitalista no mesmo preciso sentido em que uma sociedade socialista ideal é superior a uma sociedade capitalista. O socialismo lida melhor com pessoas perfeitas do que o capitalismo com pessoas imperfeitas; um governo limitado lida melhor com pessoas perfeitas do que o anarco-capitalismo com imperfeitas. E é melhor usar um biquíni num dia ensolarado que uma capa de chuva quando está chovendo. Esse não é um argumento contra carregar um guarda-chuva.
David D. Friedman é economista, professor de Direito na Universidade de Santa Clara, Califórnia, e filho do prêmio Nobel de economia Milton Friedman. Se tornou um dos founding fathers do anarco-capitalismo com a publicação de seu livro The Machinery of Freedom em 1970. Mantém um site e um blog.
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